A Ilha de Lena

Lena era uma menina especial.

 

Vivia numa ilhota no meio de um grande oceano azul. Tinha como companhia seu coqueiro — que era torto, mas ela o amava mesmo assim —, as conchas do mar e as estrelas do céu. Apenas isso. Mas não se sentia sozinha, não mesmo. Costumava correr na praia de manhã, brincar com as conchas de tarde, conversar com as estrelas de noite e abraçar sua árvore na hora de dormir.

 

Era feliz. E especial.

 

Lena tinha breves lembranças de seus pais. Sua mãe era terna e amorosa. Seu pai grande e protetor. Mas não se lembrava como eram. Seus corpos, seus rostos, seus sorrisos. Quando completou seis anos, foi colocada numa cesta e levada pelo mar. Encontrou, então, aquela ilha. Sua ilhota.

 

E mesmo assim, nunca vendo outra pessoa, Lena sabia de uma coisa: era especial.

 

 

O dia começou como qualquer outro. Lena se levantou, espreguiçou-se, abraçou seu coqueiro, cumprimentou o mar e o céu — e seus habitantes — e começou a caminhar pela praia. A ilha era perfeita para ela.

 

Mas algo aconteceu, algo que quebrou a rotina de Lena, aquela rotina que ela aprendera a amar. No horizonte, surgiu um pequeno barco, todo branco com detalhes em azul, navegando em direção à ilhota. E uma pessoa, ainda indefinida, acenava. Era uma cena bela e, ao mesmo tempo, assustadora. Algo que nunca havia acontecido. A reação que a menina teve, ou conseguiu ter, foi ficar parada — praticamente paralisada —, boquiaberta, com os olhos arregalados.

 

Aos poucos, a pessoa misteriosa ganhou a forma de um rapaz alto, magro e sorridente. Parecia ser um pouco mais velho que ela. De certa forma, mesmo com medo, Lena foi dominada pela curiosidade.

 

Quem era ele? O que existia além daquelas águas conhecidas?

 

 

— Bom dia! — disse ele, puxando o barco para a areia e sorrindo.

 

Lena ficou em silêncio, olhando-o de longe, escondida atrás de seu coqueiro.

 

— Walter. É o meu nome — tentou dar mais um sorriso. — Como se chama?

— Lena — respondeu ela com certa hesitação.

 

Por alguns segundos, os dois se olharam, olho no olho, sem piscar. E então Walter ameaçou avançar. A menina soltou um gritinho e caiu para trás.

 

— Ah, desculpe… — falou ele, sorrindo para si mesmo e sentando-se na areia. Havia entendido tudo. — Não pensei que você poderia estar com medo de mim…

 

O rapaz analisou a ilha. Pequena, como ela. Viva, como ela. E especial, como ela. Sorriu.

 

— Não se preocupe, Lena, não vou te fazer mal. Irei permanecer aqui, sentado, o tempo inteiro.

 

A menina também estava sentada, ainda desconfiada, e disse:

 

— Você é uma pessoa, não é? Assim como eu, não é?

— Sim, eu sou.

— Mas você é diferente. Maior e mais forte.

— É porque sou um homem. E você é uma mulher. Pequena e delicada.

 

Lena entendeu na hora. Ela era como sua mãe. E ele era como seu pai. Sentiu-se um pouco mais confortável.

 

— É a primeira vez que encontra outra pessoa?

— Sim… Não, já vi meus pais, mas não me lembro deles, direito… Ah, acho que é sim, então.

 

Walter riu. Ela riu. E o clima pesado sumiu. Não demorou muito e Lena começou a interrogar o rapaz. Levantou-se, caminhou de longe, depois caminhou de perto, até sentar ao seu lado e sentir seu perfume.

 

Doce.

 

 

O crepúsculo chegou como sempre chegava, todo pomposo, e Walter teve que se despedir.

 

— Essa ilha é sua, apenas sua. E só você pode passar a noite nela. Seria uma invasão, e uma grosseria enorme, dormir nessas areias — explicou ele.

— Mas o mar não é perigoso de noite? — perguntou Lena, preocupada.

— Um pouco. Mas a vida é assim.

— E sua ilha, Walter? O que aconteceu com ela?

— Nada, ela continua viva, com meu coqueiro ficando maior a cada dia que passa. Ah, como sinto falta dele… Mas ela ficou pequena demais para mim.

— Pequena? — riu ela. — Como assim?

— Um dia você vai entender, haha.

 

Abraçaram-se, Lena não conseguiu evitar as lágrimas e Walter foi embora.

 

A menina continuou acenando por um tempo, até abaixar o braço e sumir por detrás do coqueiro. De fato, ela era uma menina especial, assim como ele, e todas as outras pessoas daquele imenso oceano.

 

Talvez, apenas talvez, eles poderiam se encontrar no futuro, e cruzariam o mar atrás de uma ilha só para eles.

 

Olhou para a querida Lua e sorriu. Tinha uma longa jornada pela frente.

 

 

Lena pensou naquele rapaz por muito tempo. Ela pensou, também, no grande mundo que havia pela frente. Com o passar dos meses, percebeu que a ilha não era mais a mesma. Ainda era muito querida, tinha muito amor por ela, mas parecia menor.

 

Num belo dia, quando a menina começava a se tornar mulher, ela entendeu como Walter se sentia.

 

E um belo mundo novo começou a se abrir para ela.

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Nerd Esotérico

Sou minha essência, não sou o que digo que sou ou o que você diz que sou. Em minha mente egocêntrica, amo escrever, jogar videogame, ler, degustar filmes e boas comidas. Nada mais. Nada menos.
  • Perfeito conto! E ótimo para um inicio de ano, que possamos olhar além de nossas pequenas ilhas enxergar caminhos impensáveis para percorrer, trilhar e, quem sabe até vencer!