Ah, Flores!

Flores, adoráveis flores! Lilian caminhava por aquele exuberante jardim, extasiada e saltitante.

 

— Olhe, vovó, nunca vi tantas flores juntas num mesmo lugar! — exclamou ela, olhando para trás.

— Sim, querida, muitas e muitas flores — riu Miriam, seguindo a neta no seu ritmo, bem devagar.

 

Andaram por alguns metros, até alcançarem um banco de madeira — carvalho, com belos detalhes que lembravam a era vitoriana — e sentarem-se delicadamente. Lilian aproveitou a chance e deitou a cabeça nas pernas da avó.

 

— Cafuné! — exigiu.

 

A doce velhinha sorriu, deixou os dedos passearem pelos cabelos louros da menina e correu os olhos pelo jardim. Lembranças, tantas lembranças naquele lugar…

 

— Você vinha aqui quando era pequena?

— Sim, minha flor, bem pequena, assim como você — disse Miriam, apertando carinhosamente o nariz da garota.

— Quem fez esse jardim? — perguntou ela, como sempre perguntava, pois era muito curiosa.

— Um homem com grande sensibilidade e força para sonhar alto.

— Deve ter sido um homem bom…

 

E foi. Simon Grandi, homem que reconstruiu aquela pequena cidade, mesmo não tendo nenhuma responsabilidade sobre ela. Tinha dinheiro, mas não sabia como gastá-lo. Era apaixonado pela natureza. Assim, quando visitou aquele povoado decadente e doente, decidiu salvá-lo. Foi a melhor coisa que fez durante sua vida. Salvou centenas de pessoas. Criou aquele jardim. E deu a oportunidade de dezenas de homens e mulheres se apaixonarem no meio daquelas belas flores — como ela.

 

Miriam suspirou e sorriu para si mesma.

 

— Foi aqui que conheci seu avô.

— A senhora falou uma vez, mas foi bem rápido. Sempre quis saber como se conheceram. Conta, conta!

— Ah, querida, foi numa manhã nublada de primavera… Eu tinha onze anos. Era mais nova que você, docinho. Adorava caminhar por entre as flores, sentir o orvalho nas mãos, o friozinho característico do alvorecer. Amava isso. Ainda amo, na verdade. E ele, por acaso, também amava. Nos esbarramos bem ali, Lilian, no sopé daquela macieira.

 

Apontou para uma árvore grande e imponente. A menina imaginou aqueles ramos recheados de maçãs. Salivou, disfarçadamente. Adorava frutas.

 

— Venha, quero te mostrar algo.

 

Miriam se levantou, ignorando os pequenos protestos da neta, e entrou no jardim. Estava indo em direção à árvore. Lilian correu para alcançá-la.

 

— O que tem lá?

— Espere, menina, tenha um pouco de paciência — falou ela, rindo da careta da garota.

 

Flores, muitas flores. A velhinha abriu os braços e deixou as palmas das mãos sentirem cada uma delas. Petúnias, lírios, margaridas, rosas, violetas, gardenias, jacintos, narcisos, tulipas, cravos, crisântemos. Cores, muitas cores. Vermelho, azul, roxo, vermelho, amarelo, laranja, anil, marrom, preto, branco, verde. Odores, muitos odores. Responsáveis pela invocação de lembranças ternas.

 

Aquele lugar era muito especial. Sim, era sim.

 

Chegaram na árvore. Lilian correu os olhos pelo lugar, ergueu a sobrancelha e questionou:

 

— Então, vovó, o que tem aqui?

— Olhe para a árvore.

— Não tem nada — falou a menina, depois de alguns segundos de observação.

— Olhe bem, querida.

— Hum…

 

Lilian se aproximou, colocou a mão direita no queixo e esfregou — costumava fazer isso quando estava pensando — e soltou um gritinho de exclamação.

 

— Achei, achei, achei, achei!

— Achou o quê, minha flor?

— Aqui, olha, no tronco da árvore. Há algo escrito.

Miriam sorriu. Menina esperta, pensou ela.

 

— Foi ele que fez. Foi sua declaração de amor para mim. Eu vinha quase todos os dias para cá, adorava repousar debaixo da sombra dessa querida árvore. Ele sabia disso. E quando tínhamos dezoito anos, finalmente tomou coragem de contar o que sentia. Ah, que bom que contou, pois também amava aquele homem…

— Que lindo, vovó… Também quero isso para mim.

— Ah, querida, você vai ter, sim, um dia. Mas cada pessoa tem sua história. Poderá ser bem diferente, porém, será tão bela quanto a minha história.

— Você acha?

— Tenho certeza disso.

— Oba! — gritou Lilian, que saiu correndo em direção ao jardim de flores.

 

A doce velhinha observou sua neta, carinhosamente, e olhou para a macieira.

 

— Sinto sua falta, Edson… — sussurrou.

 

Passou a mão sobre o entalhe feito com faca no tronco da árvore, segurou as lágrimas e voltou-se para frente. A vida seguia. Em frente, sempre em frente.

 

“Foi naquela manhã primaveril que aprendi a te amar, doce Miriam, e espero conseguir sua permissão para demonstrá-lo. Com carinho, Edson.”

About the author

Nerd Esotérico

Sou minha essência, não sou o que digo que sou ou o que você diz que sou. Em minha mente egocêntrica, amo escrever, jogar videogame, ler, degustar filmes e boas comidas. Nada mais. Nada menos.

  • Linda de história contada de forma simples mostrando que os maiores prazeres e amores da vida são demonstrados de forma pura e simples, bem diferente da forma que o mundo quer nos empurrar com padrões de beleza e conquistas materiais.