Albion

Cada hora, cada minuto, cada segundo; tudo contabilizado. Aiden sentia as carícias do ar, os sussurros das árvores, o amor do Sol sob a pele. Seus cabelos negros dançavam suavemente e, volta e meia, tinha que ajeitá-los para não ficar cego. Sua veste avermelhada também bailava. O jovem bardo estava inebriado pelo clima.

 

Um cantil de couro balançava em sua cinta, sendo acompanhada ritmicamente por uma faca. Carregava o adorado alaúde em seu ombro direito, usando uma faixa de pano para isso. O instrumento de pinho trazia consigo várias lembranças, umas queridas, outras repudiadas. Apesar da antiguidade, estava muito bem preservado.

 

A floresta estava em seu fim, era fácil identificar isso, pois a quantidade de troncos e arbustos ia diminuindo ao longo da caminhada. À primeira vista, aquele lugar parecia estar coberto pelas trevas. Apenas impressão. Até as cavernas, que são tenebrosas e misteriosas, podiam possuir belezas incríveis. Tudo no mundo seguia essa regra: sem profundo conhecimento, a feiura quase sempre predominava.

 

O ambiente mudava e Aiden percebeu algumas sombras adiante. Construções, várias construções.

 

— É aqui… — disse o viajante para si mesmo.

 

Exteriormente, mostrava calma e postura. Interiormente, um redemoinho de sentimentos o atacava. Acelerou o passo, assistindo a incrível mudança de cenário. Estava entrando numa enorme clareira, que provavelmente ficava no centro daquele temido matagal.

 

Avançou sem medo e esperançoso.

 

 

Além do mar, além das terras tempestuosas, além da gigantesca Floresta Treviana. É ali que está Albion. Ah, cidade maravilhosa e esplendorosa. Querido diário, as lendas eram verdadeiras, ela realmente existe. E não está em ruínas. Muito pelo contrário, está mais viva do que nunca.

 

Acho que decidi viajar pelo mundo por causa dela. As histórias contadas por meu povo me deslumbravam. Porém, tenho que ser sincero, cheguei a pensar em desistir. Os reinos circundantes da floresta a temiam de verdade. Ouvi muitas lendas e, apesar de compreender essas superstições, algumas me abalaram. Pensei que me arrependeria se entrasse naquele mato de trevas, mas aconteceu o contrário.

 

Encontrei-a no início da manhã de ontem. É como me contaram: “O brilho de suas casas, todas construídas por uma pedra raríssima e não catalogada, poderia cegar o mais potente dos olhos. Tudo era branco, tudo”. Fiquei um pouco hesitante, com medo de ser mal interpretado pelo povo. Entretanto, surpreendi-me. Quando me viram nas cercanias, as pessoas vieram até mim. Alegres e curiosas, também mostraram temores pela floresta. Estavam impressionadas, encantadas. E eu também.

 

Adentrei a cidade, rodeado de indivíduos de diversas etnias e com vestimentas de ótima qualidade. Todas as casas eram iguais, possuindo um formato quadrado. As construções estavam espalhadas a esmo, não existia um tipo de padrão em sua distribuição.

 

Não demorou e cheguei numa praça. Havia uma grande fonte no centro e vários jardins ao seu redor. O que eu posso dizer… Sempre acreditei na força das palavras, porém, agora percebo que elas não poderão transmitir meus reais sentimentos. Tudo o que posso dizer é que Albion é um sonho.

 

Sentado lá, observando a água cristalina jorrando, percebi um grandioso semblante ao longe.

 

 

Aquela era Albion? Olhou ao redor, sentindo-se incomodado pelo estranho silêncio que rodeava a cidade. Todas as construções eram brancas, a terra macia e fértil, a brisa aconchegante. Mas onde estavam as pessoas calorosas e o brilho lendário? Era um lugar bonito, porém, já havia presenciado cidades de nível igual.

 

Andando pelas ruas disformes, Aiden encontrou algumas pessoas esquivas. A aparência delas não era das melhores, todos aparentavam tristeza e medo. Dúvidas e mais dúvidas tiravam a pouca paz que o bardo tinha.

 

Alcançando uma praça, aproximou-se de um homem que não havia fugido ao vê-lo.

 

— Bom dia, meu amigo. Sou um viajante e, perdido naquela maldita floresta, acabei encontrando esta bela cidade. Por gentileza, poderia me contar que lugar é este? — falou Aiden.

— Albion, estranho, o nome desta cidade é Albion. E, se você for inteligente o bastante, irá embora neste momento.

— Por quê?

— Nosso rei não gosta de estranhos.

— Vocês possuem um soberano?

— Sim. Está vendo aquela senhora? — perguntou ele, apontando para uma mulher que corria rua acima, seguindo a direção de uma majestosa construção. Confirmei. — Provavelmente está indo contar aos guardas sobre sua presença na cidade.

— Sério?

— Com certeza, logo eles estarão aqui. É melhor ir embora, já vi o que nosso rei faz com estranhos.

 

Aiden pensou por um instante e respondeu:

 

— O rei gosta de música?

— Não sei.  Na verdade, conheço apenas a melodia da natureza e do trabalho pesado.

— …

 

O bardo caminhou até o jardim mais próximo e sentou-se nele.

 

— Irei esperar os guardas. Tenho certeza que poderei sanar algumas dúvidas com seu rei.

— É um homem corajoso, mas também tolo — disse enquanto se afastava.

 

 

Entre tantas outras perguntas, questionei o que seria aquele semblante. Convidaram-me a vê-lo de perto. Enquanto caminhava e conversava animadamente, consegui ver o que era aquela sombra borrada pelo Sol: um castelo maravilhoso.

 

Perguntei se havia um rei entre eles, o que foi rebatido negativamente na hora. Então me contaram uma história muito interessante. Albion havia sido fundada por um grupo de cavaleiros errantes de diversos povos. Cansados do mundo exterior, encontraram o local perfeito no meio da Floresta Treviana. Havia terra fértil e grandes fontes de água pura. E, o melhor de tudo, minerais nunca antes vistos espalhados por todo o lugar. As casas surgiram a partir dessas pedras valiosas. Aquela fortaleza foi construída para os guerreiros fundadores.

 

Albion estava destinada a ser um reino de paz. Mas um dos cavaleiros questionou a ideologia que seria usada. Nunca antes um império havia concluído seus objetivos pacíficos, apenas os malignos. Surgiu então a ideia da comunidade igualitária. Ninguém era melhor ou pior que alguém, todos faziam sua parte e assim a cidade prosperava. Nunca, confirmaram-me diversas vezes, houve uma briga séria entre eles.

 

Sabe qual era o melhor daquela história? Faltavam apenas dois anos para Albion completar mil anos. Como isso é possível? Foi a primeira vez que encontrei, de maneira verdadeira, a paz em conjunto.

 

Paramos na entrada do castelo. De fato, era uma construção linda e muito bem feita. Notei os traços de várias outras arquiteturas. Havia o corpo central, talvez tenham aproveitado outro bloco do mineral alvo, e três torres. Os detalhes eram incríveis. Chamaram-me para conhecer o interior, mas recusei. Tenho que admitir, estava com medo de encontrar algo de negativo naquele ambiente. Preferi me sentar naqueles jardins, belos e coloridos, e conversar um pouco mais.

 

 

Aiden acompanhou os guardas tranquilamente. Em contrapartida, eles o trataram com muita agressividade. Não encostaram um dedo sequer nele, mas esbravejaram o quanto puderam. Ele não conseguiu determinar o que sentiam, talvez raiva, talvez medo.

 

Ao se aproximar, o andarilho observou os traços do castelo. Beleza pura. Atravessou o pátio principal, levando diversos empurrões dos soldados. O portão principal, gigante e impotente. O hall daquela fortaleza refletia bem seu exterior, mostrando toda sua força e graciosidade.

 

Havia uma abertura no fim do primeiro salão, a qual o bardo adentrou. Era a sala do trono. Quer dizer, sala dos tronos. Diversos assentos reais estavam distribuídos em forma circundante pela sala. Um se destacava, não por ser maior ou mais detalhado, e sim por estar totalmente decorado; e, nele, estava sentado um rapaz. Pararam diante dele e forçaram Aiden a se ajoelhar.

 

— Você é o estrangeiro? — perguntou ele.

— Sim.

— Como chegou aqui?

— Vim do outro lado da Floresta Treviana — falou o andarilho, fitando o rosto do jovem. Ele estava ricamente vestido e tinha uma expressão soberba. — Você é o soberano destas terras?

— Sim, estrangeiro. Sou o Rei Declan.

— Esta é realmente Albion, a Cidade Branca?

— Sim, esta é Albion. Grande e maravilhosa Albion.

 

O bardo correu os olhos pelo lugar, sendo surpreendido por uma pergunta.

 

— Que coisa é essa que você está carregando?

— Um alaúde, senhor. Sou um bardo, viajo pelo mundo fazendo música e espalhando histórias.

— Música… Música! — o homem se sobressaltou, inclinando-se um pouco para frente. — Isso é um instrumento, certo? Toque um pouco para mim.

— Com certeza, senhor. Mas eu tenho que receber algo em troca.

— Oh! — exclamou o rei, arregalando os olhos e abrindo a boca exageradamente.

 

Houve uma leve comoção entre os guardas. Apesar de perceber o motivo daquilo, Aiden manteve-se firme, não hesitando em nenhum momento.

 

— E-E o que você gostaria em troca…? — disse Rei Declan, ainda atordoado.

— Uma história. Quero apenas uma história.

— Qual? Qual?

— A história de sua família e como ela conquistou Albion.

— Ah… — ele pareceu se acalmar, relaxando no trono e mostrando um sorriso de satisfação. — Entendi. Meus soldados, vocês viram isso? Até os estrangeiros ficam fascinados pela minha família! — olhou para o andarilho. — Primeiro a música.

 

O bardo pegou gentilmente seu alaúde e começou a fazer o que mais gostava. Decidiu tocar uma melodia calma e harmoniosa, apenas com timbres sutis. Isso foi o bastante para conquistar Rei Declan, que gritava constantemente “Música!”. Terminou e encarou o homem.

 

— Acabou? Só isso? — perguntou ele.

— Sim.

— Que chato… Mas tudo bem, tudo bem.

— Permite-me uma pergunta?

— Diga.

— Onde estão os músicos desta cidade?

— Ah, mandei matar todos. As músicas deles não me agradaram. Acho que eram os instrumentos, sabe, mandei queimar todos. A população só pode cantar, mas não tocar. Enfim… Pronto para se surpreender com a história de minha família?

 

Aiden se sentou no chão, respondendo afirmativamente com a cabeça.

 

— Eu sou grande! Minha família é grande! Um de nossos antepassados foi um dos fundadores de Albion. Consegue ver a grandeza disso? — começou ele. — Tudo aqui me pertence.

 

Ajeitou-se no trono e deixou o olhar vagar pela sala.

 

— Sabe, houve uma época em que nossa família foi privada de tudo que ela merece. Ninguém morava neste castelo, não existia rei! Que absurdo, não acha? O povo mandava, como dizia meu pai entre risadas. E eu rio disso também! — gargalhou. — Mas tudo mudou por causa de meu avô. Ele juntou algumas pessoas, prometendo luxo e segurança para elas, e dominou tudo. A população tentou resistir… No entanto, algumas mortes calaram-na! Faz um pouco mais de cem anos que retornamos ao nosso lugar de direito.

— Interessante, Rei Declan. O que aconteceu com aqueles que ajudaram seu avô?

— Bem lembrado, bem lembrado. Tornaram-se os soldados de Albion. Vivem no luxo e na segurança, dentro do castelo. E estão em seus lugares.

— Entendo…

 

Rei Declan se levantou e começou a caminhar pela sala. De fato, era desengonçado e não parecia ser muito brilhante. Após um breve silêncio, ele falou:

 

— Meu avô me contou uma história, um pouco antes de morrer. Volta e meia, aparecem estrangeiros por aqui, assim como você. Em situação comum, eles são enforcados e enterrados — o coração do andarilho disparou. — Mas antes não era assim, eles podiam ir embora. Ele falou-me sobre um visitante. Apesar de ser apenas uma criança na época, contou-me com detalhes. Sabe quem veio até Albion? Um bardo, assim como você! Esse homem seria você?

 

Ele esperava uma resposta ansiosamente.

 

— Não — respondeu Aiden, rindo um pouco. — Na verdade, era um parente. Meu bisavô.

— Ah… Muito bem — falou ele, um pouco desapontado. — Esperava uma resposta mais excitante, mas tudo bem.

— Desculpe-me por isso.

— Qual é o seu nome, bardo?

— Aiden.

— A decisão está tomada! Você será o músico da corte real!

 

Todos aplaudiram, o rei estava animadíssimo, no entanto, o bardo se levantou e disse:

 

— Isso não será possível.

 

Quietude.

 

— C-Como a-assim? — perguntou Rei Declan.

— Não poderei ficar aqui, tenho que continuar viajando.

 

O soberano respirou fundo, muito fundo, mas não conseguiu segurar a frustração para si.

 

— Eu mando aqui! — berrou ele. — Tudo que está aqui é meu! Inclusive você!

— Isso não é verdade, nada aqui é seu.

 

Encarou-o. Aiden estava com medo, muito medo. Tentava perceber a movimentação dos guardas, caso algum tentasse atacá-lo. Observava todas as ações do rei. Era corajoso, por isso não tremeu nem demonstrou terror.

 

— Bastardo! Prendam-no! Prendam-no e joguem fora as chaves! Não, não, melhor ainda; deem-me as chaves. Irei mostrá-lo o meu poder, ele servirá de exemplo para todos daqui.

 

Pensou e pensou, tomando a decisão de não resistir. Largou seu alaúde, o cantil de couro e a faca. Levantou as mãos e afastou-se de seus pertences. Os soldados correram em sua direção, derrubando-o.

 

Não viu muito depois disso, pois bloquearam sua visão com um pano. Só percebeu uma coisa: estavam conduzindo ele para o subsolo. Os passos de todos ecoavam. Alguns choros vagavam por aquela área. Sentia seu nariz pinicar, provavelmente por causa da umidade do local. No fim de tudo, escutou o som de grades e foi jogado no chão frio. Com um pouco de dificuldade, retirou a venda e viu-se numa cela.

 

Suspirou profundamente e se ajeitou num canto. O tempo foi se passando e logo a noite chegou. Havia um soldado no local, forte e rabugento. Ficou o tempo inteiro reclamando e comentando que merecia estar num posto melhor. Porém, quando anoiteceu, levantou-se e foi embora, dando seu lugar para um rapaz. A expressão jovial dele chamou a atenção do bardo.

 

Aiden não precisou chamar a atenção do guarda, ele mesmo caminhou até a cela e começou a puxar assunto.

 

— É você? Você é o bardo? — foi a primeira coisa que ele falou.

— Sim.

 

Calou-se. O andarilho sentiu sua hesitação e disse:

 

— Eu me chamo Aiden. Qual é o seu nome?

— Erin…

 

A conversa começou a fluir, devagar, até o jovem soldado tocar num assunto específico. Aiden notou as intenções de Erin logo na primeira frase.

 

— Como é o mundo do outro lado da floresta?

— Estranho, mas muito bonito. Assim como este.

— É melhor viver lá?

— Não — a resposta do músico decepcionou o rapaz, que abaixou a cabeça imediatamente. — Guerras e doenças incuráveis rondam por lá — completou.

 

Erin se virou, pronto para voltar à sua cadeira, entretanto, Aiden perguntou:

 

— Por quê? — o guarda parou para escutá-lo. — Por que perguntou isso? Quer sair desta cidade?

— Sim.

— Por quê? Pensei que os soldados deste reino vivessem bem.

— O Rei Declan te falou isso, não é? — falou Erin, olhando de soslaio para o preso. — É mentira. Temos que nos virar apenas com pães, batatas e água, enquanto o rei come carne e bebe vinho todo dia.

— …

— Obrigado pela informação. Eu acho que fugirei, não posso mais viver aqui.

 

O andarilho sorriu, sentia o espírito forte daquele rapaz. Não pretendia fazer isso de início, mas tomou uma decisão: iria tentar plantar uma ideia naquela população.

 

— Uma pergunta: Por que você não faz nada?

— …?

— Por que não luta pela sua liberdade?

— Como assim?

— Você sabe como era Albion cem anos atrás?

— Sim, meu pai me contou.

— Era uma sociedade justa, não concorda?

— Sim.

 

Levantou-se e se aproximou das grades.

 

— Não seria bom voltar ao passado? Viver em plena harmonia e paz?

— Isso seria possível?

— Depende de você.

— Não, não dá. Mesmo se eu matasse o rei, haveria alguém para ficar no lugar dele. Existem soldados fiéis, bastante fiéis.

— Erin, não estou falando em morte, muito pelo contrário. Lá, no mundo depois da floresta, as pessoas usam apenas a violência para resolver seus problemas. E é por isso que as dificuldades nunca acabam.

— E como Albion poderia voltar a ser a mesma de antes?

— Já falei, isso depende de você, até achar a resposta para essa pergunta.  — Não sei… — disse Erin. Ele estava com o olhar vago, perdendo-se em pensamentos.

— Nada acontece de um dia para o outro.

— Obrigado, novamente. Errr… Poderia te ajudar em alguma coisa?

— Traga-me o meu alaúde, só isso que te peço. Adoro tocá-lo, isso me acalmaria.

— Claro, claro…

 

Aiden se encostou à parede, observando o soldado correr em busca de seu instrumento musical.

 

 

Anoiteceu.

 

Voltamos para a fonte e nos sentamos ao redor dela. Peguei o alaúde, meu precioso instrumento musical, e começamos a festejar. Não era o único músico de lá e isso me alegrou muito. Comida, bebida, música e história. Existe coisa melhor do que isso?

 

Conheci novas lendas, transmiti mais esperança e paz. Experimentei o fruto daquelas terras, eles provaram a água do mundo tempestuoso. Criamos verdadeiros laços de amor.

 

Foi uma noite inesquecível, que ficará não apenas gravado pela eternidade nessa folha, mas também em minha mente.

 

 

Estava amanhecendo. Erin corria pelo corredor entre tropeços. Como Aiden fugiu? Havia fechado os olhos por um instante, enquanto escutava a harmoniosa melodia do alaúde; e, quando se deu conta, ele havia desaparecido.

 

Chegou na sala do trono, temente. Ajoelhou-se diante o rei, que estava bastante sonolento.

 

— O que está acontecendo, soldado?

— O… O bardo fugiu!

— O quê!?

 

Despertou.

 

— Como!? Você o deixou escapar!?

— N-Não! Não sei como ele fugiu! Eu…

— Não interessa! Todos os soldados devem procurá-lo e trazê-lo de volta. Se não conseguirem, todos serão punidos. Todos!

 

Neste mesmo momento, outro guarda apareceu, correndo e trazendo notícias sobre o fugitivo.

 

— Rei Declan, Rei Declan! Informaram-nos que o estrangeiro está no centro da cidade, na praça.

— O que ele está fazendo lá? — perguntou o soberano, levantando-se de seu trono.

— Tocando seu alaúde…

 

Rei Declan berrou e foi atrás do andarilho.

 

A fonte não jorrava água, na verdade, parecia ter sido bloqueada. Na frente dela, sentado no chão, Aiden cantava:

           

“Oh, povo iludido…

Oh, povo humilhado…”

           

Muitas pessoas estavam paradas, observando-o.  Na verdade, quase a população inteira estava lá.

           

“O tempo passa,

E não volta mais.

No entanto,

Oh, pobres,

É possível revivê-lo.”

           

Ninguém entendia aquelas palavras, não perfeitamente. Porém, um forte sentimento nascia dentro daquele povo. Música, nenhuma melodia como aquela havia entrado em seus ouvidos.

           

“O rei é seu povo,

E o povo é seu rei.”

           

Uma canção maravilhosa. A maior arma para despertar a esperança no coração dos desesperados.

           

“Sozinhos, vocês não podem nada,

A alma enfraquece, o corpo apodrece.

Mas quando vocês estão juntos,

Podem tudo!”

           

O rei vinha caminhando rua abaixo, sendo seguido por dezenas de soldados. Avistou o bardo. Parou, escutando a música e quase se deixando levar por ela. No entanto, sua raiva falou mais alto.

 

— Matem-no! Matem-no! Matem-no! — esbravejou.

 

Aiden se levantou e a música cessou. Olhou para a multidão, sorrindo e dizendo:

 

— Eu já vi o mundo de antes! Era lindo e pode ser assim novamente. Como disse para um grande soldado daqui, para isso acontecer, depende somente de vocês!

 

Os guardas se aproximavam, já estavam contornando a fonte.

 

— Tudo é possível.

 

Ergueu os braços e olhou para cima. As espadas gritaram enquanto saíam de suas bainhas. Zuniram e alcançaram o corpo do bardo, mas cortaram o ar e acertaram a terra macia.

 

— O-O que é isso!? — exclamou um dos soldados.

 

A imagem de Aiden estava distorcida e, antes de desaparecer, disse:

 

— Viram? Tudo é possível!

 

Houve grande comoção entre todos. A população estava assustada, mas também maravilhada. Os guerreiros do reino atordoados. Rei Declan gritava e batia o pé como uma criança. E, por fim, Erin sorria.

 

No início da Floresta Treviana, o músico descansava sob a sombra de uma árvore. Respirou fundo e tomou um pouco de sua água. Um gole, apenas um gole. Levantou-se, energizado, e começou a adentrar o matagal. Tinha feito a sua parte. Voltaria a visitá-los, mais uma vez, e ver se a semente plantada realmente daria bons frutos.

 

           

Albion, a Cidade Branca. Acho melhor escondê-la do mundo, amado diário. Esse foi o princípio de seus fundadores, mantê-la longe da maldade. Irei seguir seus desejos.

 

Magia pura, hein. Adoro esse tipo de sentimento rejuvenescedor. Muitas de minhas aventuras já foram em vão, frustrei-me muito, a ponto de quase desistir de meus sonhos e viver uma vida ordinária. Mas são essas conquistas, mesmo que poucas, que me fazem continuar caminhando.

 

Ainda falta atravessar a Floresta Treviana, porém, já sei qual será meu próximo passo: a Fonte da Juventude! Ouvi falar que ela está escondida na Montanha dos Desejos. Irei para lá. Tenho certeza que a encontrarei e poderei visitar Albion mais uma vez. Isso acontecerá, pode guardar as minhas palavras. Irei honrar o nome que me foi dado: Aiden.

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Nerd Esotérico

Sou minha essência, não sou o que digo que sou ou o que você diz que sou. Em minha mente egocêntrica, amo escrever, jogar videogame, ler, degustar filmes e boas comidas. Nada mais. Nada menos.

  • Bela história e daria uma ótima saga, As aventuras fantásticas de Aiden, por exemplo? rsrs
    A simplicidade com o medieval mágico transborda nele, e a ingenuidade e de certa forma, ignorância do povo nos faz remeter ao nosso dia a dia real…estaria o Brasil precisando de um Aiden??…

    • Nerd Esotérico

      Obrigado, Nerd Profeta!

      Com certeza, haha, mas prefiro deixar dessa forma, pelo menos por enquanto! Às vezes, o crescimento de uma história pode ser sua ruína!

      Muita paz!