Aquele Lugar Especial de Nothing Beach (11/12)

Capítulo 11

Aquele Filho

 

Amissa ficou parada por alguns instantes, num misto de covardia e coragem, olhando o mar envolvido na escuridão da noite.

 

— É você, mãe?

— …

 

Virou-se e surpreendeu-se.

 

 

Ela vivia sozinha, mas isso não era um problema. E sim o fato dela se sentir sozinha. A solidão está nisso, no sentimento do vazio, da falta de presença, seja de outros, seja de si mesma.

 

 

Era uma sombra. Grande e poderosa. Tinha a forma de um homem. Não representava nenhum perigo, ela conseguia sentir isso.

 

— Mãe?

— Sim, sou eu.

— Finalmente, você chegou…

— Sim, chegou.

— E como foi sua viagem até aqui?

— Surpreendente.

— Imagino.

 

Amissa se sentou na areia. A sombra imitou-a. Olharam as ondas por longos minutos, em silêncio.

 

 

Ela sempre teve medo de ser julgada. Na juventude, teve a sorte de conhecer algumas pessoas que lhe deram alguma autoestima. Mas, depois, quando mais velha, sentindo que estava caindo no esquecimento, acabou mergulhando de vez nesse medo.

 

Era um silêncio gostoso, que não constrangia. E, de certa forma, estar ao lado daquela sombra, que amendontraria qualquer um, lhe deu tranquilidade. Parecia estar presente consigo mesma.

 

— Você já sabe por qual motivo te convidei para cá?

— Tenho uma ideia.

— Sabe, também, que isso tudo não é bem real?

— Suspeitava.

— Mas também é muito real. Sabia disso?

— Também suspeitava disso — falou ela, dando-se permissão para rir um pouco.

— E então, quem sou eu?

 

Contemplou o mar por alguns instantes. Era tudo tão belo…

 

 

A verdade estava sempre presente, mas ela decidiu ignorá-la. Era mais fácil viver acreditando que ela não estava errada e que o mundo era injusto. Às vezes, quando levantava e ia até a varanda para fumar, tinha um breve vislumbre da verdade e chorava. Mas logo voltava para o conforto da mentira.

 

 

— Você é parte de mim.

 

Não dava para ver, mas a sombra parecia sorrir levemente. Ela simplesmente sentiu isso.

 

— Sou sim. Sou um dos seus filhos, assim como todos aqueles que você encontrou nessa cidade, mas sou aquele que você abandonou há muito tempo, aqui mesmo, nessa praia.

 

“Todos parte de mim…”, pensou Amissa.

 

— É, isso faz sentido.

 

 

Quando era mais nova, tudo faz sentido. Parecia que viveria intensamente e que conquistaria seus sonhos. Porém, um dia, acordou e não se reconheceu mais. Onde estavam aqueles sonhos? Nada mais fazia sentido.

 

 

A sombra acariciou seus cabelos, aproximou-se dela e deixou que Amissa repousasse sua cabeça sobre seus ombros.

 

— Sou todos os sonhos que você deixou para trás. Sou aquilo que você negligenciou por tanto tempo: seu valor, sua autoestima, sua vida.

 

Sem sentir, começou a chorar.

 

 

Ela tentava passar a imagem de uma mulher independente e corajosa, que não precisava de ninguém, que era poderosa e que conseguia tudo aquilo que queria. Costumava fazer jogos de interesse com outras pessoas, apenas para se autoafirmar. Mas, no fundo, era dominada por inúmeros medos. Pequenos, mas que a envolviam com facilidade pela grande quantidade.

 

 

Chorou por longos minutos. Deixou toda a dor transbordar para fora.

 

— Eu sinto muito…

— Eu sei que sente. Foi você que sofreu por tanto tempo. Eu pude ficar aqui, observando esse belo oceano sem fim. Acho que combina comigo, sendo um aglomerado de sonhos, essa sensação de infinito.

— Tem como corrigir?

— Sempre tem, mãe. Sempre tem.

 

E Amissa adormeceu nos ombros de seu filho.

 

 

No final das contas, um grande medo mandava nas menores. Era poderoso. Era temível. Tanto que ela sequer pensava nele. Mas estava sempre presente, próximo dela. O medo de permanecer sozinha para sempre.

 

 

As ondas iam e vinham. O vento ia e vinha. O tempo ia e vinha. Tudo se movimentava, sem parar, incluindo aquele ônibus. Amissa abriu os olhos, lentamente, e viu-se sozinha, mais um vez, entre dezenas de poltronas.

 

Ajeitou-se, olhou para fora e reconhecer onde estava: Nothing Beach. Havia chegado. Levantou-se, cumprimentou o motorista e desceu. Olhou para a cidade, suspirou e começou a caminhar.

 

Estava perto do final de sua jornada.

About the author

Nerd Esotérico

Sou minha essência, não sou o que digo que sou ou o que você diz que sou. Em minha mente egocêntrica, amo escrever, jogar videogame, ler, degustar filmes e boas comidas. Nada mais. Nada menos.
  • Sabia que o filho de fato não era um filho! Mas e o Eliandro?? Será que está vivo??