Aquele Lugar Especial de Nothing Beach (1/12)

Capítulo 1

Aquela Carta

 

Toda manhã era igual.

 

Clareava. Acordava sozinha. Ficava alguns minutos deitada, olhando para a cortina da janela — gostava de como a luz passava por ela, fraca, mas resistente. Levantava, descalça, e caminhava devagar até a cozinha. Fazia café. Saía para a varanda do apartamento, acendia seu cigarro e via sua fumaça se embolando com o vapor quente que saía da xícara. Ficava alguns minutos contemplando a vista, bebericando o café e sugando seu veneno favorito.

 

Não mudava nada, nenhum passo, nenhum olhar, nenhum pensamento. Era um ritual, imutável, atemporal, que fazia todo o sentido do mundo para ela.

 

Amissa. Às vezes, tentava adivinhar o que sua mãe estava pensando quando lhe deu esse nome. Uma noite quente de outono, um homem, que tinha acabado de conhecer, disse que era o nome mais bonito que alguém poderia ter. “Por quê?”, ela perguntou, encantada com o elogio. “Ele significa aquilo que todos nós somos”, ele respondeu, sorridente. “O quê?”, ela questionou, alegre. “Perdida”, ele disse, olhando fundo nos olhos dela. Lembrava-se da decepção e como fugiu dele durante a festa inteira. Aquela lembrança era tão surreal e distante, parecia até um sonho, mas ela não conseguia esquecê-la. Tornou-se parte dela. E, naquele momento ritualístico, quando estava com o olhar perdido no céu, questionava a natureza daquelas palavras, pois, em alguns momentos, elas pareciam ser as mais verdadeiras que ela já ouvira nos seus longos e curtos 44 anos de vida.

 

 

Lavou a louça, quase deixando a xícara de café quebrar dessa vez — sempre foi um pouco desastrada —, e soltou um longo suspiro. Encostou-se na bancada da pia, coçou o nariz e olhou para o relógio de parede. Oito horas e treze minutos. Estava um pouco atrasada. Isso estava se tornando rotineiro, parecia que seus devaneios duravam cada vez mais tempo, dia após dia. Sentiu um frio na barriga. “Não posso perder esse emprego…”, pensou ela, ajeitando-se e correndo para o banheiro. Não se maquiou como costumava fazer. Saiu. Pegou o elevador. E foi em direção à saída do prédio.

 

— Senhora Amissa! — gritou o porteiro, dando a volta pelo balcão com o intuito de alcançá-la antes dela sair.

— Ah, bom dia… — cumprimentou ela, automaticamente.

— Bom dia. Chegou isso aqui para você — falou enquanto estendia a mão.

— Ah, obrigada — agradeceu Amissa, pegando um tipo de envelope. — Poderia ter deixado na minha caixa de cartas.

— Eu sei, mas foi seu filho que me entregou essa carta. Estava chorando. Pediu para entregar o quanto antes para você. Nem sabia que você tinha filho…

 

Ela ficou quieta, encarando aquela carta, e então respondeu:

 

— Mas eu não tenho filho. Nem filha.

— Olha só, que coisa estranha. Sei não, senhora Amissa, agora que você me falou, ele parecia meio doido. Magro, vestindo farrapos…

— Bem, de qualquer forma, obrigada. Estou atrasada, tenho que ir.

— Bom dia pra senhora! — exclamou ele, voltando para seu posto de trabalho com seu habitual sorriso solícito.

 

Deixou a carta na bolsa e, sem pensar duas vezes, mergulhou em sua rotina.

 

 

Toda noite era igual.

 

Escurecia. Entrava em casa. Tirava os sapatos e sentia o piso de madeira com prazer. Deixava a bolsa sobre a mesa da cozinha. Abria a geladeira, pegava alguma coisa no congelador e colocava no micro-ondas. Jogava-se no sofá e ligava a televisão. Comia. Fumava e ria enquanto se distraía com a novela. Depois, adormecia por algumas horas, só para acordar no início da madrugada. E, então, afundava na solidão e nos pensamentos.

 

“Amissa, perdida, como todos.”

 

Porém, naquela noite em especial, o ritual noturno não aconteceu. Assim que Amissa fechou a porta, largou a bolsa e foi até o sofá. Deitou e suspirou. Foi um dia longo e difícil. Gritos, ameaças, trabalho dobrado. Não conseguiu almoçar. Não conseguiu pensar nela mesma. Estava cansada daquilo, mas o que poderia fazer para mudar a situação? Precisava daquele emprego. Não podia desistir. Já havia desistido muito durante a vida.

 

“O que posso fazer?”, pensou ela. “Além de aceitar as coisas como elas são?”

 

Ficou mais alguns minutos assim, olhando para o teto, com vontade de chorar. Em que ponto ela errou? Quando sua vida tomou aquele rumo? Dívidas, tédio, solidão.

 

E então se lembrou daquela carta.

 

Levantou-se, sem pensar muito, retirou o envelope da bolsa. Papel amarelado, rasgos nos cantos, um pouco amassado. Tudo indicava que era uma carta antiga.

 

“Para Amissa, minha querida mãe, que, em meus sonhos, visitei tantas vezes.”

 

Sentiu um frio na barriga.

 

“Não é possível… Deve ser uma brincadeira.”

 

Hesitou, mas abriu o envelope. E leu.

 

“Te amo. Começo assim, pois essa não é uma carta tradicional. E também é a coisa mais verdadeira que poderia te dizer. Há alguns anos, infelizmente, você me abandonou. Deixou-me no sopé de um belo coqueiro, na beira do mar. Foi embora, sem motivo, simplesmente foi embora. Mas não te culpo. As pessoas, nesse mundo, perdem-se com muita facilidade. Queria conversar com você. Saber seus motivos. Conhecê-la novamente. E, talvez, fazer parte da sua vida. Mais uma vez. Não ficaríamos mais sozinhos. Teríamos, ao menos, um ao outro. Venha me encontrar, o mais rápido que puder, no nosso lugar especial. Lembra-se? Aquela praia que você me abandonou, naquela pequena cidade que você ia com seus pais no verão. Nothing Beach. Espero você. Ansiosamente. Calorosamente. Com amor, seu filho.”

 

Terminou. As lágrimas deslizavam pelo seu rosto. Por que estava chorando? Não entendia. Não entendia grande parte do que estava escrito naquela carta. Estava sendo difícil digerir aquilo. Largou tudo. O papel, a bolsa, o peso que carregava nos ombros. Deitou e dormiu, ali mesmo, sem perceber. Estava tão cansada… De tudo.

 

 

Amissa tentou ignorar aquela carta. Mas não conseguiu. Quando percebia, via-se relendo o conteúdo dela. Pensava, o tempo inteiro, em Nothing Beach. E aquelas palavras ecoavam na sua cabeça.

 

“Te amo. Te amo. Te amo. Te amo. te amo. Te amo. Te amo. Te amo.; te amo. Te amo.”

 

Não escutava ou lia aquelas palavras há muito tempo. Amor. O que era amor para ela? Não fazia ideia. Na realidade, nunca havia parado para pensar nisso. Vivia um dia após o outros, simplesmente. Não precisava pensar muito. Mas, de fato, isso era certo?

 

E, numa manhã nublada e fria de inverno, Amissa embarcou num ônibus. Usava um casaco de lã. Calças jeans. Tênis, modelo simples, de cor azulada. Cabelo preso. Olhar inquieto. Coração acelerado. Não achou estranho ser a única passageira daquela viagem. Nem olhou para o motorista. Preocupava-se somente com uma coisa.

 

Nothing Beach.

About the author

Nerd Esotérico

Sou minha essência, não sou o que digo que sou ou o que você diz que sou. Em minha mente egocêntrica, amo escrever, jogar videogame, ler, degustar filmes e boas comidas. Nada mais. Nada menos.