Aquele Lugar Especial de Nothing Beach (2/12)

Capítulo 2

Aquele Ônibus

 

Nudez. Respiração pesada. Estrelas brilhando intensamente no céu. Pessoas, muitas pessoas. Areia nos cabelos. O som das ondas. Um rapaz, sorridente, único ser de forma clara. Um súbito bem-estar. Ele desapareceu. Pessoas se aproximaram. Sorrisos maliciosos. Um súbito mal-estar. Mãos segurando seu corpo. Sussurros odiosos. Raiva. Medo.

 

E, então, silêncio. Todos sumiram. Solidão. O mar morreu. As estrelas se esconderam. A noite ficou mais escura.

 

“Você escolheu isso, Amissa.”

 

Voz. Eco. Tom de desprezo. Humilhada. Acabada. Mais solidão. Uma fina lágrima, contida, deslizando pelas maçãs do rosto.

 

“Você escolheu viver omissa.”

 

Areia movediça. Envolvimento. Corpo e alma. Mais e mais solidão. E, afundar, naquela situação, não parecia uma má ideia. Desejava sumir.

 

“Você escolheu a negação.”

 

E, num instante, estava imersa na areia. Sem ar. Sem esperança. Sem amor. Sentiu-se morta, por fim.

 

 

Foi um processo lento.

 

Acordou. Sentiu-se tonta. Ajeitou-se na poltrona. A visão ficou fosca. Parecia, na verdade, que ainda sonhava. Olhou para fora. A estrada estava deserta. Longa. Não se via nada nos campos e vales que cercavam o veículo. Olhou ao redor e sentiu um leve incômodo por estar sozinha.

 

Respirou fundo e conseguiu se levantar. Ainda estava tonta.

 

“Que estranho…”, pensou ela.

 

Caminhou, com dificuldade, até a frente do ônibus.

 

— Ei, falta muito para chegar em…

 

Não conseguiu terminar a frase.

 

A imagem que se seguiu a perseguiu por anos, assim como muitas outras que ela veria nas próximas horas. Porém, como ela costumava falar nos dias felizes, a primeira vez sempre é mais impactante.

 

Sangue, muito sangue em tudo que ele tocava. Foi a primeira coisa que capturou sua atenção. Parecia ser um homem, mas não era. Tinha certeza disso. Era puro músculo, ao ar livre, contraindo-se, secretando uma espécie de gosma rosada. Não tinha olhos. Não tinha nariz. Mas tinha boca. E dentes, muitos dentes, afiados, para fora e para dentro. Sorria, sem parar. Dirigia o ônibus com calma, ciente de si, ciente dela, ciente de tudo.

 

As pernas de Amissa bambearam e, com o costumeiro balançar do veículo, ela acabou caindo.

 

Jijijiji, não se preocupe, senhora Amissa. Estamos chegando, sim, estamos.

 

Não conseguia falar. E, então, parou de respirar.

 

— Acalme-se, vamos, não é nada demais — falou ele. — Você está exagerando.

 

Tentava, com todas as forças, respirar. Era um ataque de pânico? Ou uma ação daquela criatura? Não importava. Tudo o que queria, naquele momento, era fugir.

 

— Agora, jijijiji, por que você não dorme mais um pouco?

 

E sentiu-se morta, mais uma vez.

 

 

Esperou por ele, naquela praia, por muito tempo. “Onde ele está?”, perguntou-se diversas vezes, olhando a vinda e ida das ondas.

 

Mas, infelizmente, ele nunca apareceu naquele encontro.

 

Ela entendeu tudo. Foi embora, triste, com um sorriso melancólico. Quando pegou a bicicleta, desejando nunca ter conhecido aquela pessoa, pensou no egoísmo das pessoas.

 

“Ele me usou.”

 

E essas palavras se repetiram na sua cabeça, sem parar, por anos e anos. Até, ela, por fim, encontrar-se entrando num ônibus vazio e estranho, voltando para um lugar que te trouxe muitas coisas boas e ruins.

 

Assim foi o sonho de Amissa. Revivendo todas esse momento, diversas e diversas vezes.

 

Até que, por fim, sentiu-se morta, novamente.

 

 

— Moça…

 

Uma voz ecoou em sua cabeça…

 

— Moça…

 

Tão distante…

 

— Moça…

 

E fria…

 

— Ei, moça! Nós chegamos! — o motorista gritou, mais uma vez.

— Ah… — sussurrou ela, despertando daqueles sonhos estranhos. — Ah, sim, desculpe.

 

Recuperou-se do súbito despertar, levantou-se e ajeitou a roupa. Já tinha chegado? E o que foi aquilo tudo? Sonhos dentro de sonhos? Soltou um longo suspiro. Com um pouco de receio, foi até a frente do ônibus.

 

— Sono profundo, hein, moça — brincou o motorista, um homem de meia idade com dentes amarelados e sorriso gentil.

— Desculpa — falou Amissa, sem graça.

— Sem problemas, sem problemas.

 

Ela desceu do veículo com calma, acostumou-se com a claridade e deparou-se com uma grande placa.

 

Bem vindo a Nothing Beach! Lar da tranquilidade!

 

Observou o ambiente. E nada. Estava no meio do nada. Olhou para trás. O coração acelerou. As pernas bambearam novamente. E perdeu a voz.

 

Jijijiji, foi uma boa viagem, sim, foi. Divertido! E revelador! Mas só posso te levar até aqui. O resto é com você.

 

A criatura fechou as portas do ônibus, acelerou e foi embora; deixando Amissa sozinha na estrada. Isso foi, de certa forma, um grande alívio. E pesar. Deixou-se cair no chão e chorou. Lágrimas de medo.

 

“O que está acontecendo?”

About the author

Nerd Esotérico

Sou minha essência, não sou o que digo que sou ou o que você diz que sou. Em minha mente egocêntrica, amo escrever, jogar videogame, ler, degustar filmes e boas comidas. Nada mais. Nada menos.