Aquele Lugar Especial de Nothing Beach (3/12)

Capítulo 3

Aquela Longa Estrada

 

Andava em linha reta, sem parar, tentando não pensar muito. Em vão. Quando decidiu continuar a viagem, depois de alguns minutos de choro e duas horas de reflexão, Amissa pensou que estava perto. Oras, tinha a placa que indicava o início da cidade — mesmo sendo diferente daquela que ela viu tantas vezes no passado, que era grande e bela, em forma de arco; agora, infelizmente, era um mero pedaço de metal na beira da estrada. Mas estava errada.

 

“Há quanto tempo estou caminhando? Horas…?”, pensou ela, olhando para os pés.

 

Deixou um longo suspiro escapar. E sentiu uma leve frustração nascendo em seu peito.

 

“O que estou fazendo aqui?”

 

Agonia, brotando de todos os lados.

 

“Faltei o trabalho. Não deveria ter feito isso. Preciso dele…”

 

Medo, muito medo.

 

“Não estou no meu estado normal, estou tendo alucinações, estou indo para uma cidade que não vou há mais de dez anos…”

 

Estava ficando difícil de respirar.

 

“Por que estou fazendo isso ?” Para quê?”

 

E então parou. Respirou fundo.

 

“Não adianta… Já estou aqui…”, pensou ela, com clareza e maturidade. “Se eu voltar, posso demorar muito mais para encontrar algum posto ou cidade.”

 

E, com o pensamento “preciso continuar”, Amissa continuou andando em linha reta.

 

 

Antigamente, quando tinha vinte anos, Amissa costumava se sentar em qualquer lugar. Sorria, sem parar, e não precisava de um motivo para isso. Ria alto. Gesticulava bastante. Era popular, mas tinha poucos amigos, escolhia bem. Não bebia. Não fumava. Gostava da sobriedade. E gostava ainda mais de sentir as coisas; o vento no rosto, a respiração dele enquanto dormiam abraçados, o ronronar de um gato, a respiração pesada de um cão que já brincou muito.

 

Mas tudo aquilo parecia fazer parte de um sonho, tão distante, tão irreal… Parecia que vivia uma existência bem diferente. Antes, a vida era recheada de certezas. Atualmente, seu recheio é um misto de insegurança e medo.

 

Agora, Amissa tem nojo de sentar em qualquer lugar — não quer sujar ou estragar suas roupas. Solta alguns sorrisos, falsos, em geral, mas ri bem baixo. Não gesticula mais. Fica quieta, com os braços cruzados ou nos bolsos, analisando, pensativa. Não é popular. Tem um monte de colegas, mas nenhum amigo de verdade. Bebe. Fuma. Não gosta da sobriedade. E evita sentir as coisas, focando-se em reclamações; “vento chato, está desmanchando o penteado!”, “que homem enjoado, quer ficar grudado”, “odeio abraçar gatos, fico cheia de pelos…”, “que cão horrível, não para quieto!”.

 

Tudo mudou. Mas as coisas não mudam naturalmente? Sim, mudam. Mas deveriam mudar para pior ou melhor? Tanto faz. A vida é assim. Ou somos nós que não temos controle sobre ela?

 

Dúvidas. Essa é a mente de Amissa agora.

 

 

Não aguentava mais. Estava cansada, muito cansado. Com medo, também. Estava escurecendo e logo estaria envolvida pelo véu da noite. Como iria se virar assim?

 

— Onde está essa maldita cidade? Não aguento mais isso…

 

Pensou em parar, até ameaçou, mas não parou. E, durante esse pensamento, uma luz surgiu na estrada. Amissa não se virou. O coração disparou. O medo se intensificou. Sem perceber, acelerou o passo — como se fosse adiantar alguma coisa.

 

— Ei, moça…

 

Era um carro e o motorista a chamava.

 

— Moça, para onde está indo? Parece perdida.

 

Tentou ignorar, mas a buzina a assustou. Olhou para o veículo. Era um homem. Parecia ter a mesma idade que a dela. Ele sorriu com tamanha sinceridade que a desarmou.

 

— Ah… Nothing Beach.

— Não está muito longe.

— Eu sei… Eu estava num ônibus, mas o motorista me deixou no meio da estrada… — falou ela, parando de andar e concentrando-se no homem. — Não sei por que ele fez isso, mas fez.

— Nossa, que horrível

 

Silêncio por alguns segundos. Incômodo. Mas verdadeiro.

 

— Ei… Não quer uma carona?

 

Amissa hesitou, olhou para os lados. Nenhum sinal da cidade, ainda. Respirou fundo. Não conhecia aquele homem. Poderia ter más intenções. Ou, simplesmente, boas. Notou aquele sorriso de antes. Decidiu parar de pensar e respondeu:

 

— Claro, por que não?

About the author

Nerd Esotérico

Sou minha essência, não sou o que digo que sou ou o que você diz que sou. Em minha mente egocêntrica, amo escrever, jogar videogame, ler, degustar filmes e boas comidas. Nada mais. Nada menos.

  • A situação está ficando mais estranha e sombria com a Amissa…sinto o nervoso dela aqui lendo! Espero que ela não morra rs!

    • Nerd Esotérico

      E vai ficar cada vez mais!

      Será que ela morre? Hahaha.