Aquele Lugar Especial de Nothing Beach (4/12)

Capítulo 4

Aquela Carona

 

O carro ia rápido pela estrada, que seguia caminhos sinuosos por entres vários vales. Amissa sempre achou aquela geografia engraçada, pois, um pouco mais adiante, estava o mar.

 

Era esquisito, mas belo.

 

Já havia feito aquela viagem muitas vezes e sempre sentia uma sensação estranha quando estava chegando em Nothing Beach. Uma coisa que apenas se sente, não se descreve.

 

E, naquele momento, dentro daquele veículo, ela sentiu o clima mudar. Estava chegando, finalmente.

 

— Então, como você se chama? — perguntou o motorista.

— Amissa — ela respondeu, depois de alguns segundos de silêncio. — E você?

 

Ele sorriu, novamente com aquela sinceridade e calma, mas não respondeu. Amissa ficou um pouco desconfortável.

 

— E o que vai fazer em Nothing Beach?

— Visitar… — esquivou-se da pergunta.

— É mesmo? Eu também! — exclamou ele, dando uma risada alta. — Desde minha infância, na verdade. Minha avó morava lá.

 

Ela não disse nada, mas sentiu um frio na barriga. Uma onda de memórias a cobriu. Sua avó também viveu lá. Era na casa dela que ficava nos verões. Durante a infância e grande parte da adolescência. Passeou inúmeras vezes por aquelas ruas pequenas e simples. Nadou nas água da praia com paixão e alegria. Conheceu ele. Ficou com vontade de chorar. Aquela foi, de fato, a melhor época da sua vida.

 

Encostou a cabeça no vidro, observou a noite, cruzou os braços e sentiu uma tristeza que nunca sentira antes.

 

— Sabe, ela já morreu. Mas, por algum motivo, continuo indo lá.

 

Amissa virou a cabeça e encarou o homem.

 

— Os melhores anos da minha vida foram em Nothing Beach. Fora de lá, tudo me parece falso.

 

Identificou-se.

 

— E acabo me sentindo muito sozinho.

 

“Solidão…”, pensou ela.

 

Quando foi a última vez que Amissa se sentiu acompanhada? Não conseguia se lembrar. Desde a morte da sua mãe,  da sua avó e de seu irmão mais novo — acidente de carro —, e da despedida dele, nunca mais se sentiu próxima de alguém. Sempre sozinha. Seja em casa, seja no trabalho, seja num bar lotado.

 

“É, me sinto assim também…”, não teve coragem de falar em voz alta.

 

Observou o ambiente lá fora. Os vales e morros estavam acabando. Logo, chegaria à cidade.

 

— Também conheci meu amor lá, sabe? Coisa mais linda que já vira. Mas me escapou, como água. Acho que vivemos num mundo líquido, mesmo. Tudo vai embora assim, rápido.

— E nada dura… — completou ela.

— Exato… — falou ele, sorrindo para si mesmo.

 

E, num instante, quando olhou para aquele homem, viu-se. Acabada, triste, em lamentações. Mas foi apenas por segundos. Não ficou assustada. Na verdade, ficou com vontade de chorar. Quando se deu conta, a mesma pessoa de antes, segurando forte no volante, sorria para ela.

 

— Solidão. Acho que esse é o meu nome — disse, finalmente.

— Que conveniente — brincou ela.

 

Os dois compartilharam uma boa risada.

 

— Olha, estamos chegando.

 

Amissa se inclinou na poltrona. pequenas luzes iluminavam o litoral, que era pequeno e delimitado por rochas — com exceção de apenas uma praia que desenhava uma meia lua incompleta na costa.

 

— Finalmente…

 

Continuaram a viagem em silêncio. Amissa sentiu-se em paz, acompanhada, finalmente. O carro se aproximou das primeira casas e parou num posto de gasolina. Amissa olhou para o lado. E não encontrou ninguém. O banco do motorista estava vazio. Não sentiu medo. Na realidade, sentiu uma estranha tristeza.

“Por que foi embora sem se despedir?”, pensou ela.

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Nerd Esotérico

Sou minha essência, não sou o que digo que sou ou o que você diz que sou. Em minha mente egocêntrica, amo escrever, jogar videogame, ler, degustar filmes e boas comidas. Nada mais. Nada menos.