Aquele Lugar Especial de Nothing Beach (5/12)

Capítulo 5

Aquela Lanchonete

 

Confortável. Amissa se sentia assim naquele carro. Havia algo de familiar ali, enquanto se mantinha sentada na poltrona fofa, olhando para a rua pouco iluminada, algo que a deixava calma.

 

Soltou um longo suspiro, inclinou o corpo para frente e sorriu — não era felicidade, não era tristeza, era apenas um sorriso.

 

“Tenho que continuar…”, pensou, abrindo a porta do veículo e sentindo a brisa da noite envolver seu corpo e a maresia invadir suas narinas. “Ah, esse cheiro… Há quanto tempo não sinto essa cidade…?”

 

Fechou os olhos e deixou essa pequena, mas bondosa, nostalgia engoli-la e levá-la para longe. Mas só por alguns segundos. Quando abriu os olhos, os bons sentimentos fugiram. Viu-se sozinha num posto de gasolina, na entrada da cidade, com medo e frio. Instintivamente, olhou para trás, em busca do seu mais recente porto seguro, mas não encontrou mais o carro. Sumiu, rápido, assim como o motorista.

 

Sorriu, novamente, medrosamente, melancolicamente, ironicamente.

 

“Por que estou sempre sozinha?”, perguntou-se.

 

Fixou os olhos no chão. Tinha que se concentrar na sua tarefa. Bateu o pé no chão, deu dois tapas no rosto e olhou ao redor. Todas as luzes estavam apagadas, a loja de conveniências, na área de troca de óleo, no lava-jato. Protegeu as mãos do frio nos bolsos do casaco de lã e caminhou até a beirada da rua, seguindo o caminho até a cidade. Não podia ficar parada.

 

Então, depois de alguns passos, além das luzes dos postes da cidade, viu uma pequena luz ao longe. Concentrou-se naquele ponto e continuou andando. A brisa transformou-se num vento, fazendo seus cabelos esvoaçarem e suas roupas dançarem. Podia continuar daquele jeito, mas logo o vento não era mais vento; era ventania. Assobiante. Assombrosa. E, medrosa, Amissa começou a correr.

 

“O que é isso? Do nada?”, pensou ela.

 

O ponto iluminado ia aumentando. Era retangular e não muito grande. Tinha um grande letreiro, mas apagado. Ela continuou correndo, tropeçando, segurando suas coisas, respirando pesadamente. Não pensou muito, simplesmente seguiu aquela luz. E, quando se deu conta, estava há alguns metros da porta, apenas. Parecia ser uma espécie de contêiner bem grande, mas adaptado para ser uma lanchonete. Não conseguiu ver mais nenhum detalhe.

 

TRIN

 

O sininho da porta anunciou a chegada de Amissa. Ela se curvou, apoiando as mãos no joelho e tentando recuperar o fôlego. E, quando se levantou e conseguiu olhar o interior daquele estabelecimento, notou, pela primeira vez em horas, a presença de várias pessoas. Sentiu um intenso alívio. E, ao mesmo tempo, um pequeno medo — ou estava ficando louca ou havia algo de errado com aquele lugar.

 

Caminhou até o balcão e se sentou. O local era bonito e parecia representar um estilo retro. Já foi em muitas lanchonetes assim no passado. Simples, mas aconchegantes. Observou as pessoas, todas sentadas, de cabeça baixa, olhando seus pratos, com talheres nas mãos e…

 

— Olá, querida, como posso te ajudar?

 

Amissa tomou um susto, derrubando, sem querer, um açucareiro de vidro que estava na bancada.

 

— Ah, desculpa! — exclamou ela.

 

Era uma garçonete. E, naquele momento, estava com o rosto contraído e mal-humorado. Mas o que impressionou Amissa foi que, mesmo com cara feia, ela era lindíssima. Ela se agachou, falando baixinho “acontece…”, e começou a arrumar a bagunça. Observou uma pequena placa com um nome: Jul. Cabelos dourados, pele branca e lisa, boca desenhada e rosada naturalmente, corpo escultural e olhos de esmeralda. Sentiu algo que sentia há muito tempo quando via uma mulher assim: inveja.

 

“Por que ela é tão bonita?”, pensou Amissa, um pouco triste.

 

— Nossa, você se desenhou no chão agora, não é? — falou Jul enquanto se levantava com cacos de vidros nas mãos.

— Como assim? — perguntou Amissa, um pouco confusa.

 

A bela mulher, entretanto, apenas sorriu e afastou-se.

 

“Eu sou uma bagunça?”

 

Suspirou. Estava se sentindo insegura.

 

— Então, como posso ajudá-la? — questionou a garçonete quando voltou, com pouca cortesia e varrendo o chão.

— Hum… — hesitou. — Na verdade, estou perdida. E confusa, para ser sincera.

 

A garçonete ficou quieta, encarando-a, e disse:

 

— Perdida? Confusa? Hum… — olhou-a intensamente e continuou. — Percebe-se…

 

Amissa sentiu um frio na barriga. Aquilo, de novo. Deboche? Não entendeu muito bem, então apenas sorriu.

 

— É… Eu vinha para Nothing Beach na minha adolescência, mas algumas coisas mudaram desde então. Essa lanchonete, por exemplo.

— É mesmo? Isso foi há 50 anos atrás? — riu ela, deixando Amissa desconfortável. — Olha, se não for cliente, não pode ficar aqui. Então…

 

Risadas no fundo.

 

“Estão rindo de mim?”

 

Sem graça, ela pegou o cardápio, olhou rápido e disse:

 

— Um expresso médio, então.

 

Jul sorriu, preparou o expresso e serviu Amissa. E a encarou. Um misto de sentimentos começou a invadi-la enquanto bebericava o café. Hesitava se mexer, olhar ao redor ou falar mais alguma coisa. Algo naquela mulher o deixava acuada e com pouco de raiva.

 

“Ah, mas eu já passei por isso antes… Existem muitas pessoas como ela…”

 

Todos julgam.

 

Sem parar.

 

Julgam. Julgam. Julgam.

 

Mas nada disso é maldade, como afirmam. “É normal julgar”, costumam falar. Será que isso é verdade? Ou precisamos nos responsabilizar pelo que falamos?

 

Amissa não sabia. Tudo o que sabia era que aquilo tudo doía. Anos e anos vivendo dessa forma, notando como as pessoas olhavam para ela, com desprezo.

 

Aos poucos, as luzes da lanchonete começaram a perder sua força. E Amissa ficou mergulhada numa penumbra sinistra.

 

— O café está bom? — perguntou Jul.

— Sim…

— Dizem que o conteúdo, aquilo que está no interior, é mais importante, mas acho que o lado de fora é mais. Olhe bem, você tomaria esse café se ele tivesse sido servido numa xícara suja e quebrada?

 

Ela refletiu um pouco.

 

— Não sei…

— Não sabe? Hahaha! Não sabe de nada mesmo, né? — debochou a garçonete, jogando o cabelo para trás.

 

Mais risadas dos outros clientes. Amissa abaixou a cabeça ainda mais. E o ambiente ficou um pouco mais escuro.

 

— Por que você está visitando essa cidade?

— Recebi uma carta… De uma pessoa…

— Ora, isso é uma surpresa, você tem alguém na sua vida?

— Bem…

— É, isso é realmente surpreendente. Olhe para você. Toda acabada. Essa pessoa deve gostar muito de ti!

 

HAHAHAHAHAHA!

 

“Acabada? Ah, sim…”

 

Amissa não gostava de se olhar no espelho. Tentava se manter bonita, mas o tempo não ajudava. Já tinha leves rugas. Dentes tortos e amarelados. Olheiras. E uma das expressões mais frias e distantes que já viu. Mas nem sempre foi assim… Houve um tempo que se sentia bonita e feliz.

 

“O que mudou?”

 

Mergulhou numa intensa escuridão, sendo possível enxergar apenas Jul, com seu sorriso debochado e irônico.

 

— Você é digna de pena.

 

As risadas, agora, vieram com força. Ecoaram e penetraram fundo em sua alma. Não conseguiu evitar. Chorou. Lágrimas de dor, profunda dor.

 

“Por que isso está acontecendo comigo?”, pensou ela, desesperada.

 

Não aguentava mais. Tinha que ir embora. Era melhor enfrentar aquela ventania do que permanecer ali. Levantou-se, pronta para ir embora, mas alguém segurou seu cabelo com força. Foi puxada e bateu com as costas no balcão. Era Jul.

 

— Pensa que pode ir embora assim? Acha que pode fugir da verdade?

— Larga… Ah, larga, só me deixa ir embora… — suplicou Amissa, soluçando.

— Mesmo que você vá embora, sempre estarei com você, sua covarde! — e, com isso, largou o cabelo de Amissa.

 

Não pensou duas vezes. Correu até a saída, sem ver nada, escutando as risadas histéricas daquelas pessoas, e saiu. Mas não parou de correr. Seguiu a estrada, na direção da cidade, e estava tão transtornada que nem percebeu que a ventania havia parado. Também não notou que saiu de um contêiner velho e abandonado, tampouco a mulher decrépita que saiu de lá com um largo sorriso esburacado. Seguiu correndo, entre tropeços e soluços.

 

Sentia muita dor.

About the author

Nerd Esotérico

Sou minha essência, não sou o que digo que sou ou o que você diz que sou. Em minha mente egocêntrica, amo escrever, jogar videogame, ler, degustar filmes e boas comidas. Nada mais. Nada menos.

  • Medo! O que real e o que está na mente perturbada da Amissa?? Coitada dela, espero que saia dessa viva!