Aquele Lugar Especial de Nothing Beach (7/12)

Capítulo 7

Aquelas Ruas Desertas

 

Nothing Beach era uma pequena cidade litorânea. Viveu, no passado, a partir do turismo, por causa de sua pequena, mas magnífica, praia. E era um ponto de passagens para diversas espécies de peixes e aves. Mas isso tudo mudou.

 

A praia foi vítima do homem. E os animais mudaram sua rota.

 

A rica Nothing Beach começou a empobrecer, com o enfraquecimento do turismo local, tornando-se uma cidade vazia, com pessoas miseráveis e população minúscula — menos de mil habitantes.

 

A cidade podia ser descrita como um emaranhado de ruas longas, retas e vazias; com uma pequena praça no centro de tudo — onde estava a prefeitura, a igreja e o comércio principal. Casas de madeira aos pedaços, trailers abandonados e tendas rasgadas. A praia, agora suja e feia, não recebia a menor manutenção.

 

Não havia mais nada em Nothing Beach.

 

 

Chegou. Finalmente estava em Nothing Beach. Oficialmente, naquela cidade que, outrora, fora tão bela e radiante.

 

Caminhava, em linha reta, por aquela longa rua, sem pensar, apenas sentindo a brisa noturna e aquele cheiro forte de sal. As casas, trailers de verão e barracas. Tudo escuro, abandonado e morto. Menos ela. Sentia-se viva, com um estranho calor no peito. Presente. Finalmente, depois de muito tempo.

 

Às vezes, parecia que via o passado. Pequenas imagens. Ela correndo pela estrada, diminuta, com seus oito anos, ao lado dele. Cresceram juntos, naqueles verões, e, mesmo separados pelas outras estações, ansiavam pelo reencontro.

 

Ele… Homem franzino, fraco, mas meigo e companheiro de grandes aventuras. Tentava esquecê-lo, mas não conseguia. Era boa em fingir isso, porém. Mas, naquela situação, naquelas ruas desertas recheadas de lembranças, não podia mais fugir.

 

“Eliandro…”, pensou naquele nome que trouxera tantas alegrias e tristezas.

 

Parou, fechou os olhos e imagens se formaram. Ela, com seus dez anos, segurando uma mão macia e sensível, e correndo. Protegia Eliandro de alguns valentões. Ela, com seus treze anos, dando seu primeiro beijo, escondida, atrás das rochas da praia. Eram os lábios de Eliandro. Ela, com seus dezoito anos, nua, suada e sorrindo, numa cama improvisada numa casa abandonada. Abraçava o corpo de Eliandro. Ela, com seus vinte anos, esperando, ansiosa, no ponto de ônibus. Riu quando viu Eliandro tropeçando e quase caindo enquanto descia do veículo. Ela, com seus vinte e dois anos, sozinha, na praça, esperando dia após dia a chegada dele. Eliandro não foi para Nothing Beach esse ano e não escreveu. Ela, com seus vinte e três anos, chorando numa casa vazia, sentindo a dor da morte da avó. Eliandro apareceu, mas se afastou. Ela, com seus vinte e quatro anos, abandonada na praia, esperando por ele. Eliandro a esqueceu e já estava com outra.

 

Cresceu com ele, acostumou-se com ele. Seus pais sempre brincavam que ainda iriam se casar. Isso, talvez, tenha cativada a menina, romântica, e ela cresceu acreditando naquela ideia. Mas, às vezes, a realidade toma um rumo diferente daquilo que imaginamos.

 

Vinte anos de um sofrimento silencioso. Contorceu o rosto numa expressão raivosa.

 

“Eu o odeio…”

 

Abriu os olhos. Estava, novamente, naquela escuridão. Por alguns momentos, sentiu o sentido daquilo tudo, de estar ali, passando por aquilo. Mas logo esse sentimento foi embora. Ouviu o som de passos, não muito longe, e olhou para trás. Um vulto grande, com mais de dois metros de altura, aproximava-se dela. Tremia sem parar. E gemia. Amissa ficou paralisada, olhando para aquela estranha massa escura com forma de homem, sem reação.

 

Num instante, o vulto estava andando devagar. Noutro, estava correndo. Ela demorou um pouco para reagir. Era muita informação para processar.

 

“Preciso correr…”, pensou, sentindo um grande pânico invadir sua mente.

 

E, soltando um grande grito, Amissa conseguiu sair do lugar

 

Correu. Correu. Correu. Correu. Correu. Correu. Sem parar, em linha reta, sem tropeçar, dando um passo de cada vez. Adrenalina. Medo. Pânico. Desespero.

 

E verdade.

 

“Pare!”, uma voz ecoou pela sua cabeça. “Enfrente!”

 

Amissa tentou ignorar, mas aquilo continuou.

 

“Não fuja! Não está cansada de fugir? Pare, mamãe!”

 

Mamãe… Aquela voz, parecia fazer parte dela, mas estava chamando-a de mãe? Lembrou-se do motivo de estar lá, em Nothing Beach, pensou no absurdo daquilo tudo, lembrou-se daquela carona com a solidão e com o terrível encontro que teve com a Jul. E, involuntariamente, num impulso, ela parou. Virou-se, firmou os pés e preparou-se para o choque. A sombra veio com tudo, acertando seu peito e jogando-a para o alto.

 

O tempo parecia estar em câmera lenta. Ela voava, sem sentir nenhuma espécie de dor, e, quando era para cair no chão, afundou no que parecia ser água. Afundou num mar de lembranças. E Eliandro era o protagonista desse grande show. Todos os pequenos e grandes momentos vividos por eles foi visto e revisto por ela, naquela fração de segundos, até ela perceber que estava caída, no chão, olhando para o céu nublado e feio, respirando pesado.

 

Tampou o rosto, de vergonha, e começou a chorar. Mentira para si mesma por muito tempo. Não odiava Eliandro. Amava ele. Não conseguia aceitar o abandono. Sempre comparou ele com os outros homens de sua vida. Ignorava a constante presença dele em suas decisões.

 

— Você sempre evitou pensar nisso, depois daquele dia, na praia. Mas foi exatamente por evitar isso que você nunca lhe deu a chance de esquecê-lo — disse aquela sombra, enquanto olhava para ela.  — Nunca mais fuja da verdade.

 

Evaporou, sumindo para sempre, deixando Amissa, ainda chorando, sozinha naquelas ruas desertas.

About the author

Nerd Esotérico

Sou minha essência, não sou o que digo que sou ou o que você diz que sou. Em minha mente egocêntrica, amo escrever, jogar videogame, ler, degustar filmes e boas comidas. Nada mais. Nada menos.

  • Será então que ela REALMENTE teve um filho e o pai seria esse Eliandro?? Ou tudo não passa dentro de sua mente….Amissa cada vez mais misteriosa!