Aquele Lugar Especial de Nothing Beach (8/12)

Capítulo 8

Aquela Praça

 

O único mercado de Nothing Beach ficava na praça central. De tamanho mediano, era um dos alicerces da cidade. Senhor Lincoln, dono do local, era uma figura conhecida por todos. Era carismático. E bondoso. Até a crise atingir a cidade. Quando a miséria chegou, sua esposa foi embora, levando seus filhos. Ficou sozinho. Cresceu lá e prometeu para si mesmo não abandonar a cidade. Atualmente, o mercado ainda está aberto e é possível encontrar o Senhor Lincoln no balcão, cabisbaixo. Dizem que ele está sempre com o olhar distante. “Parece um morto-vivo”, costumam falar.

 

Dona Anésia era a dona da única padaria e confeitaria da cidade. Seus bolos faziam um sucesso fenomenal. Sua placa era a mais chamativa da praça, com inúmeros doces, dos mais variados tipos, enfeitando o nome do estabelecimento: “Nothing Cakes”. Ela decidiu fazer um investimento grande um pouco antes da crise começar. E isso foi sua ruína. Expandiu o local para fantasmas e insetos. Um dia, ela simplesmente não abriu. Seus funcionários não conseguiram entrar no local. Não a encontraram em casa. Morava sozinha, nunca se casou ou teve filhos. Um dia. Dois dias. Três dias. Nenhum sinal dela. Arrombaram a loja. Encontraram-na na cozinha, enforcada, morta há dias. Descobriram que ela iria declarar falência. Dona Anésia não aguentou.

 

A Igreja era uma força de união. Quase todos os moradores da cidade a frequentavam. E todos amavam o Padre Silas. Homem de idade avançada e respeitável. A construção inspirava respeito na praça central e em Nothing Beach. Claro, existiam outros grupos religiosos na cidade, mas nenhum chegava perto da congregação do Padre Silas. No terceiro ano depois do início da crise, Padre Silas faleceu, ataque cardíaco fulminante. Não enviaram um novo padre. Sabiam que a cidade estava morrendo. E ajudaram nesse processo, deixando a fé do povo morrer bem mais rápido.

 

O Departamento de Polícia, em seus anos dourados, tinha mais de dez viaturas e cinquenta policiais em serviço. Cidade pequena, mas extremamente segura e convidativa. O Xerife Erickson era um exemplo para todos. Homem de caráter sólido, que ajuda todos, que protegia todos. Cinco anos depois do início da crise, levou um tiro no peito enquanto atendia uma ocorrência de invasão à domicílio. Morreu no local. Na época, o Departamento de Polícia tinha apenas cinco viaturas e dezoito policiais. Atualmente, tem uma viatura, metade da delegacia está abandonada por falta de manutenção e possui apenas seis policiais, incluindo o novo xerife, um rapaz sem escrúpulos e corrupto.

 

A Prefeitura era, de longe, a estrutura mais bela da praça e da cidade. Foi projetada por um famoso arquiteto local e erguida com as mãos da população. Administrada, geralmente, pelos justíssimos membros da Família Manson, a Prefeitura era a base central e sólida que mantinha a cidade. Infelizmente, depois que a crise começou, a Família Manson foi caluniada, acusada de fazer parte daquela desgraçada, e nunca mais conseguiu chegar ao poder. Então, os abutres da cidade se aproveitaram da oportunidade e ajudaram a destruir o pouco que restou. Depois de alguns anos no poder, eles foram embora, para outras cidades, deixando a Prefeitura aos pedaços. Atualmente, o membro mais novo da Família Manson, Arthur, cuida do local.

 

A praça central era uma bela visão para todos que passavam por ali. Redonda, com canteiros floridos em todos os cantos, um parquinho para as crianças e algumas mesas para piqueniques e jogos. Havia uma fonte no centro de tudo, que jorrava água cristalina para o alto, criando uma bela imagem final para a praça. Hoje em dia, os canteiros carregam apenas ervas-daninhas, o parquinho está destruído, as mesas já não existem e, por fim, a fonte está semi-destruída.

 

Antes, a praça era uma imagem de força para Nothing Beach. Hoje em dia, representa sua fragilidade e derrota.

 

 

Amissa já tinha parado de chorar há algum tempo, mas continuou deitada naquele chão duro, com o rosto tampado, respirando pesado. Dessa forma, sentia-se segura. Ainda estava processando tudo o que aconteceu. A sombra, as lembranças de Eliandro e a verdade.

 

“Eu o amo… Eu o odeio… Tudo ao mesmo tempo?”, pensava ela, sem parar. “É… Faz sentido, muito sentido…”

 

Baixou as mãos, devagar, e repousou-as no peito. Lá estava aquele céu nublado, mais um vez. E lá estava ela, encarando-o, mais uma vez. Sentiu um pingo d’água cair no rosto. Dois pingos. Três pingos. Sete pingos. Onze pingos.

 

“Ele foi embora. Eliandro foi embora… Não posso mudar isso… Ah, por quê?”

 

Era frustrante pensar naquilo. Sentou-se, sendo envolvida pela leve chuva, e os pingos d’água se misturaram em novas lágrimas. Tinha que chorar, mais um vez, e quantas fossem necessárias. Tinha que expulsar aquela dor, aqueles sentimentos reprimidos e esquecidos. Chorou alto, chorou muito, chorou demais, chorou bastante; chorou, chorou e chorou. Até os olhos secarem e sentir um intenso alívio.

 

Liberdade.

 

 

A chuva continuava, ainda fraca, em diagonal, por causa do vento que tinha aumentado levemente. Amissa seguiu a longa rua, ignorando qualquer desvio, pois sabia qual era o destino: a grande praça central. Dali, o caminho para a praia era muito mais fácil. Andava devagar, sentindo certa fraqueza, física e emocional. Mas tinha que continuar, não podia parar, não podia desistir. Iria até o final daquilo tudo.

 

Vinte minutos andando, em linha reta, sem parar. Esse foi o tempo que levou para chegar até a praça. Não viu ninguém. Não ouviu nada além dos próprios passos, respiração e o som da chuva. E, finalmente, não pensou em nada. Apenas seguiu em frente.

 

Tudo escuro, tudo abandonado. Mas, num piscar de olhos, a cena mudou. Os postes estavam acessos. A aparência deteriorada e acabada de tudo derramou uma grande tristeza em Amissa. Haviam pessoas, que não eram pessoas, apenas roupas flutuantes, sem corpo; passeando pela calçada, sentando em bancos velhos e parados no sereno.

 

Não sentiu medo. Olhou brevemente para aquele ambiente, abaixou a cabeça e continuou sua caminhada. Todos ignoraram sua presença. Na realidade, era como se não a vissem. Simplesmente continuaram fazendo o que estavam fazendo. Amissa começou a cruzar a praça, parando em alguns pontos, lembrando do passado, sentindo um enorme vazio.

 

Observou o único mercado de Nothing Beach. Lembrou-se das balas que ganhava do Senhor Lincoln e de seu sorriso bondoso. A confeitaria que fora alvo de muitos sonhos agora estava completamente abandonado. Mas, mesmo assim, podia ver Dona Anésia por detrás do balcão, sorrindo, alegre como sempre. Placas de madeira barravam a entrada da Igreja, mas Amissa jurou escutar, bem ao longe, a voz mansa e sábia do Padre Silas pronunciando alguns versículos da Bíblia, como sempre fazia em suas missas. Recordou do Xerife Erickson e de seus atos heróicos, verdadeira lenda entre as crianças. Eliandro queria ser como ele, por um tempo. Recordou do dia que foi para uma reunião na Prefeitura, com sua avó, e do único contato que teve com o filho do prefeito atual, Arthur Manson, menino tímido, mas doce.

 

E a praça, ah, a praça que tanto visitou, agora em ruínas. Ficou magoada, muito magoada. Gostava principalmente da fonte. Costumava se sentar ali perto, observar a água jorrando alto, formando, às vezes, pequenos e breves arco-íris. Sentiu um grande impulso de sentar na beirada dela. Ficou alguns minutos ali, pensando naquele vazio, até que sentiu a presença de alguém. Uma das roupas flutuantes se aproximava.

 

— Você também sente isso, não é?

 

Era uma voz, direto na cabeça da Amissa, e ela sabia que pertencia àquela roupa flutuante.

 

— O quê?

— Esse vazio.

— Ah… — pensou um pouco antes de responder. — Acho que sinto.

 

Silêncio. Contemplação daquilo tudo.

 

— Às vezes, as coisas perdem o sentido que tinham antes. E sobra apenas um vazio.

— Mas por que precisa ser assim?

— Porque a vida é assim. Ou aceitamos e seguimos adiante. Ou não aceitamos e não seguimos adiante.

 

Com isso, a roupa flutuante se afastou, deixando Amissa sozinha com seus pensamentos. Por alguns instantes, ela ficou quieta, cabisbaixa, e parecia que iria chorar mais uma vez. Porém, um sorriso se desenhou em seu rosto.

 

“Entendi… Acho que estou começando a entender tudo isso…”

 

Amissa se levantou, segurou as lágrimas e manteve o leve sorriso. Ainda tinha um longo caminho para percorrer.

About the author

Nerd Esotérico

Sou minha essência, não sou o que digo que sou ou o que você diz que sou. Em minha mente egocêntrica, amo escrever, jogar videogame, ler, degustar filmes e boas comidas. Nada mais. Nada menos.

  • O cenário está caminhando num desfechar que sinto que será triste…ou libertador?!
    Amissa estava conversando com as pessoas que viviam lá ou era o próprio Eliandro??