Aquele Lugar Especial de Nothing Beach (9/12)

Capítulo 9

Aqueles Seres Asquerosos

 

Metade do caminho. Algumas pessoas entendem que um copo preenchido de água até a metade está meio cheio, enquanto outras entendem que está meio vazio. Percepções diferentes. Situações diferentes. Individualidades diferentes. Amissa preferia não pensar muito nisso, porém, naquele momento, enxergava as coisas de forma mais positiva. Não estava mais com medo.

 

Andando, por aquelas ruas retas e desertas, ela começava a ouvir, bem ao longe, o som das ondas. Já fazia algum tempo que havia deixado a praça central para trás, sem encontrar ninguém.

 

Mas sabia, e sentia, que logo encontrar algo.

 

 

Na escuridão da alma, ele surge. Um ser cuja ambição é guiar seu criador. Ele assume diversas formas, dependendo da situação, e ajuda como pode. É o sofrimento encarnado. É a inquietude encarnada. É tudo aquilo que o criador sentiu e reprimiu por muito tempo.

 

 

O cheiro de sal ficava mais forte a cada passo. Faltava pouco.

 

“Finalmente…”, pensou Amissa, percebendo a eminente aproximação da praia.

 

Antes de alcançar o ponto mais desejado de Nothing Beach, qualquer pessoa deveria atravessar um pequeno campo. Na era de ouro da cidade, era um lugar cuidado e com diversas trilhas bem delimitadas. Amissa suspeitava que não era mais assim.

 

Continuou caminhando, atravessando ruas, visitando memórias. Até que, por fim, alcançou a última rua. Parou no início do campo, observou o mato alto e suspirou. Anos se passaram desde que esteve ali, naquele exato local. O coração acelerou.

 

“O que encontrarei além do campo?”, pensou ela.

 

Som de passos. Madeira caindo. Galhos de quebrando Risadinhas. Amissa sentiu um grande medo. Olhou para trás. E arregalou os olhos. Inúmeras criaturas, pequenas, moviam-se na escuridão. Saiam dos bueiros e das casas abandonadas. E, ao longe, vindo de outras ruas e partes da cidade, uma massa escura, como uma verdadeira neblina negra, engolindo tudo que estava no seu caminho.

 

E, então, ela correu mato adentro. Estava com medo. Não podia ser capturada agora. Estava tão perto…

 

 

Ele, desde o início, amou a alma dela. Mas ela estava tão envolta pela escuridão, pelo sofrimento, pela repressão, que não conseguiu se aproximar dela. Não queria trazer dor, mas, às vezes, para sanar uma dor maior, é necessário causar uma dor menor. E assim ele enviou aquela carta para ela.

 

Amissa já estava machucada. Por dentro e por fora. Mas, naquele instante, correndo no mato alto, tropeçando e caindo, cortando-se em algumas plantas traçoeiras, estava se machucando ainda mais. Tinha muito medo. Ouvia o som das ondas. Sentia o cheiro do mar. O vento marítimo. Estava muito perto. Sabia que se fosse capturada por aquelas criaturas e, consequentemente, por aquela neblina negra, não seria mais capaz de continuar.

 

Ela correu, correu, correu. Ela machucou-se, machucou-se, machucou-se. Ela gritou, gritou, gritou. Ela desesperou-se, desesperou-se, desesperou-se.

 

Sentiu algo agarrar sua perna esquerda. Desequilibrou-se e caiu com tudo no chão, batendo a cabeça numa pequena pedra. Gemeu. Tentou se levantar. Viu o sangue pingar e cair na areia. Sentiu mãos pequenas em vários pontos do corpo. Viu as criaturas. Deformadas, em carne viva, sorrindo, rindo, debochando.

 

— Você não vai fugir — disse uma delas com voz estridente.

— Hahaha, nunca mais!

— Espere, nossa mãe está chegando.

— Vai doer, mas só um pouco, pra aprender a não fugir mais dela.

— Somos medos e as mentiras, precisamos honrar nossos nomes.

 

Amissa tentou lutar. Chutou, esperneou, berrou, chorou. Um som alto, insuportável e indescritível, aproximou-se. Era aquela névoa escura. Ela ficou paralisada, com os olhos arregalados, encarando a nuvem que pairava sobre si. As criaturas riam, sem parar.

 

E, quando a neblina começou a descer, antes de começar a engolir Amissa, uma forte luz inundou o campo. Aqueles seres asquerosos gritaram de dor e correram para longe. E a névoa dissipou-se, sumiu da mesma forma que tinha aparecido, rápido demais.

 

Incrédula, ela ficou deitada no chão, de lado, olhando uma pequena folha se mexer no ritmo do vento. Respirou fundo, levantou-se com a ajuda das mãos e olhou para a fonte da luz.

Jijijiji, está tudo bem com a senhora? — sorriu uma criatura já conhecida, de pé entre os faróis de seu ônibus.

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Nerd Esotérico

Sou minha essência, não sou o que digo que sou ou o que você diz que sou. Em minha mente egocêntrica, amo escrever, jogar videogame, ler, degustar filmes e boas comidas. Nada mais. Nada menos.

  • Rapaz, não é que esse motorista é real?? Que cena grotesca essa que Amissa acabou de escapar hem…