As Últimas Luzes da Terra

Ela me encara por longos segundos e repete a pergunta:

 

— Tem certeza? Vai ficar para trás?

 

Seu cabelo balança violentamente por causa da ventania, que uiva e preenche cada pedaço daquela fazenda que foi um lugar tão vivo no passado.

 

— Não vai junto com nós? — insiste ela.

 

Vejo meus sobrinhos me olhando por detrás da janela. E meu cunhado se mantém firme no volante, olhando para frente, ansioso para ir embora.

 

— Não, vou ficar.

 

Minha irmã solta um longo suspiro e abaixa a cabeça. Finalmente desistiu… Abraça-me e sinto suas lágrimas molharem minha camisa. Não sinto nada.

 

— Você não tem jeito mesmo… — sussurra. — O que nossa mãe acharia disso?

— Não faz diferença, ela está morta, de qualquer forma…

 

Que tolice… Quem não tem jeito é ela. Ou seu marido. Ou seus filhos. Ou qualquer outra pessoa dessa sociedade inútil…

 

Ela seca as lágrimas, olha atentamente para mim — talvez tentando memorizar cada pedaço do meu rosto — e diz:

 

— Eu te amo.

— Vai, agora. Está quase na hora.

 

Ela ri, mais para ela do que para mim, e entra no carro. Permaneço imóvel até o veículo sumir na escuridão da estrada.

 

Tolos…

 

Olho para aquela bola de fogo azul que ilumina o céu noturno. Nossa, está tão grande, tão perto. Engraçado… No início, fiquei com medo de tudo isso. O fim. Mas fui me acostumando com a ideia. Não, na verdade, comecei a gostar da situação. De certa forma, eu sempre ansiei pela morte.

 

Cresci nessa fazenda, com minha mãe, meu pai e minha irmã. Entro na casa, caminho pelos cômodos e revivo todas as lembranças que vivi aqui. Esbarro comigo correndo pelos corredores. Revejo a intensa briga que tive com meus pais na adolescência, observando os pratos voando pela cozinha. Sento na mesma poltrona que sentei para chorar a morte deles, quando decidiram tirar a própria vida, meses atrás. E dou adeus para tudo isso.

 

Quando fecho a porta, quando atravesso a cancela de madeira, quando sigo para a cidade; sinto que finalmente estou deixando o passado para trás.

 

A situação ainda me parece estranha. Um asteroide desconhecido na vizinhança. Vida inteligente e benevolente entrando em contato conosco. Um milagre. E a condenação da Terra. Hoje, 27 de setembro, marca exatamente um ano que tudo isso começou. Foi quando eles apareceram, alertando-nos sobre o perigo eminente. Dois meses depois essa gigantesca bola de fogo azul apareceu no céu. Pequeno, de início, agora, tão grande quanto a Lua. A humanidade, porém, não irá desaparecer do universo. Não. Esses seres, que nunca se mostraram para nós, irão salvar todos. Pelo menos aqueles que querem ser salvos.

 

É o que minha irmã e sua família querem. Ser salvos. Eu, em contrapartida, não quero.

 

Chego na cidade. Oras, não sou o único que ficou para trás… Há outros. Os solitários, os pessimistas, os viciados, os velhos tolos e apaixonados, os filósofos.

 

Não importa, não mesmo.

 

Sigo meu caminho e chego no meu destino, o maior prédio da cidade. No seu topo, posso ver os vales que preenchem a região. Centenas de pessoas se acumulam por lá. Estão esperando por eles. Faltam cinco minutos.

 

Cheguei a tempo…

 

Sento-me no concreto e observo aquela cena. Estou curioso. O que vai acontecer?

 

As pessoas vivem por viver. Não, estou errado, não vivem, apenas existem. Sempre teve algo de errado com a nossa sociedade. Sempre! Nunca fiz amigos verdadeiros. Nunca me apaixonei por alguém. Nunca suportei as regras. Nunca fiz parte desse mundo. Por isso, e só por isso, decidi ficar para trás. Quero ver o fim. Quero fazer parte do fim. É a única coisa que já fez sentido na minha vida.

 

Chegou a hora!

 

Olho atentamente para os vales. Um grande clarão me cega. Caio para trás, protegendo meu rosto, e permaneço no chão por um tempo. Aos poucos, volto a enxergar. Levanto-me. E não vejo ninguém. Foram todos embora. Assim, num piscar de olhos, todos sumiram.

 

— Que sem graça — digo para mim mesmo, rindo alto, em seguida.

 

Que estranho… Todas as pessoas sumiram, no entanto, suas coisas permaneceram nos vales. Suas malas, bolsas, roupas e objetos. Não faz diferença. Talvez não precisem para onde estão indo.

 

Não importa.

 

Agora, basta esperar mais algumas horas, e o fim finalmente chegará. Enquanto isso, caminho pela cidade, olhando para as casas, para tudo que ficou para trás, para tudo que vai sumir para sempre. De que adiantou construir tudo isso? Por que amamos tanto essas coisas? Por que queremos tanto acumular objetos e pedaços de papel? Que tolice!

 

Quando percebo, estou chegando nos vales, caminhando por entre as tralhas daqueles que foram salvos, chutando uma mala aqui, socando uma bolsa acolá. Pela primeira vez na minha vida, sinto-me em paz. E feliz.

 

Olho para o céu. Lá está ele, meu grande herói, gigante, rindo para mim. Está próximo. Muito próximo. E, do nada, o asteroide começa a evaporar. Suas partículas se deslocam, são sugadas para algo invisível — uma nave, talvez — e some.

 

Fico quieto, olhando para cima, com os olhos arregalados. E começo a gargalhar. Deixo meu corpo cair na grama fria. No final de tudo, eu sou o tolo. O fim do mundo realmente chegou, só que de forma diferente, e eu presenciei tudo. E continuo aqui.

 

Que ironia… Que tristeza… Que alegria… Não sei. Só sei que esse planeta nunca me pareceu tão bonito quanto agora.

About the author

Nerd Esotérico

Sou minha essência, não sou o que digo que sou ou o que você diz que sou. Em minha mente egocêntrica, amo escrever, jogar videogame, ler, degustar filmes e boas comidas. Nada mais. Nada menos.