Doce Adeline

O pôr do sol é belo, mas ela é mais.

 

O som das ondas é inebriante, mas ela é mais.

 

A brisa morna é acalentadora, mas ela é mais.

 

A natureza é uma das forças supremas do universo. Porém, mesmo reconhecendo essa verdade, nada supera Adeline. Diante meus olhos, ela é magnífica em todos os sentidos possíveis.

 

Somente uma coisa pode explicar essa contradição: amor.

 

— O que será que existe além desse oceano? — pergunta Adeline.

 

Meu dedos passeiam nos seus cabelos negros. Ela descansa no meu colo. Olhamos o horizonte.

 

Contemplamos.

 

— Não sei. As possibilidades são infinitas.

— Algum dia saberemos a verdade?

— Sim, acredito que sim.

 

Entregamo-nos ao silêncio e testemunhamos a morte do dia. Num doce trocar de carícias e beijos, nos separamos. Adeline caminha até a beira do mar.

 

— É um adeus ou até logo?

— Até logo — respondo.

 

Vejo seu sorriso leve e puro. E seu corpo começa a evaporar, assim como o restante do cenário. Fico aqui, nessa imensidão branca, sem pensar.

 

Sala Alva.

 

Projeção de ideias.

 

O elixir dos sonhadores.

 

O amparador dos desafortunados.

 

Deixo um suspiro escapar. Levanto-me e saio do recinto.

 

— Demorou dessa vez, Pietro — diz o recepcionista, enquanto me observa assinar meu nome na lista de visitantes.

— É necessário, às vezes.

 

Atravesso o saguão e entro no corredor que irá me levar ao meu laboratório. Antes da invenção da Sala Alva, podia amar Adeline apenas em meus sonhos. Era uma angústia imensurável. Agora, entretanto, posso me alimentar com um pouco de ilusão no café da manhã. Não posso mentir. Mesmo sabendo que é tudo enganação, eu gosto.

 

Olho pela janela e contemplo Rajas. Cidade espetacular, símbolo de paz e união.

 

— O último refúgio da humanidade…

 

 

Nasci um século depois da Grande Explosão que dizimou toda a Europa. Metade afundou no oceano, metade se tornou inóspito. A Ásia foi devastada pelas ações de um tirano. A Oceania sumiu do mapa por motivos que desconheço. A África estava tomada pelas guerrilhas. E a América do Norte foi dominada pela SASS, uma inteligência artificial que, num belo dia, decidiu que a humanidade não deveria mais existir. Nunca mais ouvimos falar da Antártida.

 

E onde eu vivi? Na América do Sul, no único lugar habitável. É uma grande ironia que a Amazônia, tão maltratada pelo ser humano, foi a responsável pela sobrevivência de todos. Ela nos salvou com suas árvores e seus frutos.

 

Isso é amor!

 

Não estávamos livres da maldade, é claro, mas aquela floresta alimentava nossas almas com esperança. E isso bastava para procurarmos a vida.

 

Quando adulto, decidi viajar para as ruínas das cidades do mundo antigo. Vivi como um rato. E foi no Rio de Janeiro, nos escombros de um antigo edifício, que os encontrei. Pietro e Adeline. Pequenos. Unidos. O início do que iria ser uma bela e triste história.

 

Adotei-os.

 

Cresceram. E como cresceram… Adeline passou a olhar para cima. Queria saber o que estava além daquele céu sem vida. Pietro descobriu as maravilhas da ciência e da natureza. E eu, Rodolfo, mergulhei no mundo da filosofia ao encontrar uma antiga biblioteca.

 

Aos poucos, esse grande casal começou a buscar mais e mais. Tornaram-se uma fonte de esperança para a humanidade.

 

Conhecimento e fé, juntos, destroem todas as barreiras que existem.

 

Eles deram à humanidade uma nova chance. O que eles fizeram foi lindo. Uma verdadeira demostração de amor. A história é longa, um verdadeiro canto épico, então basta saber que conseguimos fugir. Alçamos voo em direção ao futuro.

 

Ainda hoje penso… O que a Terra sentiu ao perceber que seus filhos estavam partindo?

 

 

Não há dias quentes ou frios em Gaia. Sempre ameno, devido à sua inclinação ideal, a região central do planeta é o local ideal para nós.

 

Olho-me no espelho, enquanto ajeito meu terno, e penso no passado mais uma vez. É inútil… Preciso sair! Solto um longo suspiro e encontro-me com a noite, perfeita como sempre. Uno e Duo brilham fortemente no céu. O show de luzes é incrível. De um lado, azul, do outro, vermelho; e no centro, um intenso roxo. Sigo a estrada, em direção ao estádio central de Rajas, observando essa incansável apresentação da natureza.

 

Vários homens caminham ao meu lado. Toda a população está acordada, em direção ao mesmo destino, mas ninguém fala. A fúnebre quietude é quebrada, às vezes, pelo uivos dos lobos gaianos. É o único dia do ano que a lamúria é permitida.

 

Encontro meu lugar na arquibancada. Fito o pequeno lago superficial que fica no centro do estádio, suas águas serenas e cristalinas. Um dos únicos elos que temos com o nosso antigo lar.

 

Alguns jovens se destacam. Estão na beira da lagoa, usando um tipo de roupa especial para balé aquático. Quando todos se sentam, suspiram e se preparam, o festival começa. Jatos d’água voam para o alto. Os bailarinos saltam, dão piruetas, e caem de pé na superfície da água. E começam a patinar. É uma dança harmônica com a natureza que os rodeia. Pouco a pouco, tudo toma forma. Com o auxílio de luzes e dos jatos d’água, um número incomensurável de flores são desenhadas no ar.

 

É belo! Maravilhoso! Nunca me canso dessa comemoração. Uma verdadeira homenagem para aquelas que são verdadeiras rosas: as mulheres.

 

Mas…

 

Quando foi que perdemos a esperança?

 

 

Impetus foi nosso lar por séculos, enquanto flutuávamos pelo universo. Congelados, com nossas vidas sustentadas por uma inteligência artificial criado por Pietro, YAT, vagamos rumo ao desconhecido. Através de cálculos e predições “intuitivas”, YAT encontrou Gaia. E tivemos uma nova chance, finalmente.

 

Existem duas palavras que descrevem Gaia completamente: pureza e beleza. Vimos algo que conhecíamos apenas nas histórias de ninar. Vida!

 

A humanidade despertou, porém, muito cansada. Corpos frágeis para aquele novo mundo. E, mais uma vez, Pietro apareceu com a solução. Utilizando uma função já existente em Impetus, que é a clonagem, ele fundamentou a transferência da consciência humana. Com isso, era possível uma coisa que os antigos encontravam apenas em seus sonhos…

 

Imortalidade!

 

Renascemos com corpos novos e fortes, modificados geneticamente para uma existência voltada para a paz e o amor. O desejo sexual foi eliminado por completo. Nossa fome e sede reduzidos ao máximo. Foi delineado um perfeito equilíbrio entre corpo e mente. E vivemos dessa forma por curtos e belos vinte anos.

 

Até uma nova tragédia abater a humanidade…

 

 

Entro no saguão e olho ao redor. Onde ele está? Enquanto caminho por entre as mesas, procurando-o, sinto o peso da mochila. Não é nada comparado com as coisas que carrego na minha mente.

 

Estou cansado, mas não posso desistir.

 

— Me procurando, rapaz?

 

Conheço essa voz.

 

— Rodolfo! — exclamo, virando-me.

 

Lá está ele, perto da janela, contemplando o nascer do dia. Fico do seu lado.

 

— Vai ficar quanto tempo fora dessa vez? — pergunta ele.

— Por volta de seis meses.

— Espero que obtenha sucesso.

— Obrigado…

 

O dia está começando em Rajas. Os homens se ocupam. Seguem com suas existências sem se preocupar com o que foi deixado para trás. Muitos, na realidade, decidiram apagar suas memórias do passado. Seja da Terra, seja delas.

 

Não entendo…

 

Como conseguem?

 

— Posso te perguntar algo?

— Diga — fala Rodolfo.

— Você já perdeu as esperanças também?

 

Ele demora um pouco para responder.

 

— Não. Na realidade, às vezes, penso que o esforço é inútil. Mas me lembro da Terra. E do que vocês dois fizeram. Seria tolice desistir.

 

Sinto-me aliviado. Rodolfo, o homem que mais admiro nessa vida, ainda confia em mim.

 

— Eu preciso ir. Tenho que chegar nas montanhas antes do amanhecer.

— A floresta pode ser perigosa.

— Exatamente.

 

Não me despeço. Não é necessário. Sei que ele estará aqui quando eu retornar. E espero trazê-la comigo dessa vez.

 

 

O que uma mãe faz?

 

Cuida. Ensina. Ama.

 

A Terra era nossa mãe. Ela cuidava da humanidade, independentemente da situação. Tentava nos ensinar. Amava incondicionalmente. Nunca valorizamos isso. E então chegamos em Gaia, mas esquecemos de uma coisa… Ela não era nossa mãe.

 

Não sabemos ainda o motivo por trás de tudo.

 

As mulheres, pouco a pouco, começaram a adoecer. Sem alarde, com pequenas febres e dores de cabeça. No entanto, os sintomas persistiram e multiplicaram-se; até que, de súbito, elas entraram num intenso coma.

 

Nenhuma acordou.

 

O tempo passou. O deus da morte fez seu papel e ficamos completamente sozinhos.

 

Tentamos e tentamos, mas nada deu certo. Tínhamos a memória de cada mulher gravada em Impetus. A transferência de consciência é isso na realidade, apenas uma cópia da personalidade do indivíduo, com suas memórias e preferências. Com isso, apelamos para a clonagem. Sem sucesso.

 

Com o passar dos anos, os homens começaram a desistir. “De que adianta tanto esforço em vão?”, eles diziam. E hoje, ao ver Pietro ir embora mais uma vez, o único que ainda procura amar sua mulher novamente, entendo tudo. A luz sempre veio dele e de Adeline. Eles são os anjos da humanidade.

 

Olho para fora, vejo Rajas, mas penso apenas naqueles dois. E me lembro o quanto os amo.

 

 

Caminho sempre em frente. Nunca olho para trás. Foi isso que prometi para ela.

 

Daqui já consigo vê-lo. Impetus, nosso salvador. Quando chegamos em Gaia, pousamos num vale que fica a dois meses de distância de Rajas. Nos mudamos, mas a nave permaneceu. Levamos apenas o necessário. No meu caso, nunca me mudei de verdade. Deixei uma coisa muito importante aqui.

 

Ando sem parar… E chego em Impetus. Ao entrar, ativo a energia e espero o sistema operacional iniciar.

 

(BIPE)

 

— Bom dia, YAT.

— Bom dia, Pietro.

— Teve sonhos agradáveis?

— Claro, fui programada pelo melhor.

 

Essa voz… Parecia uma boa ideia naquela época. Hoje, sinto um grande calafrio ao escutá-la.

 

— Abra a câmara dela.

— Já está sendo providenciado.

 

Sigo pelo corredor, entro na ala B e chego numa sala gigantesca. Todas as câmaras de congelamento estão fechadas, com exceção de um, que emite uma luz azulada.

 

— Quais são as condições dela? — pergunto eu, enquanto me dirijo até ela.

— Estáveis.

— Ótimo.

 

Aqui está ela… O amor da minha vida, Adeline. Longe de mim por longos e dolorosos 700 anos… E ainda não cheguei a lugar algum na investigação desse problema. Vou até uma grande mesa localizada no centro do salão. Toda a minha pesquisa está aqui, séculos e séculos.

 

Vasculho a mesa com os olhos. Ali está, a caixa que era tão especial para Adeline. Abro-a com cuidado, sinto a leve melodia me envolver e removo o fundo falso. Enquanto faço isso, pergunto-me: “Por que ela gosta tanto desse objeto?”. Achamos nos escombros de uma casa e, desde então, carrega consigo. Não entendo, mas ela sempre esteve adiante, vê coisas que sou incapaz…

 

Pego o delicado envelope que está no fundo da caixa. Às vezes, no final do dia, fico imaginando ela escrevendo essa carta. Será que chorou? Ou continuou sorrindo como sempre?

 

Leio.

 

“Para o meu herói…

Você está lá fora. Daqui te vejo. Tão bonito… Sei que a ideia foi minha, sei que você irá sofrer, e peço perdão por isso. Mas que outra alternativa temos? Esse planeta… Por algum motivo Gaia nos rejeitou. Você é o único que pode conciliar ela com a humanidade. Sei que você consegue. Lembra-se do dia que nos conhecemos? De como me salvou? De como me protegeu até Rodolfo nos encontrar? De como reacendeu a esperança na humanidade? Lembra-se disso tudo? Eu me lembro. Você é um verdadeiro herói. O meu amado herói. Confio em você. Sei que irá me salvar mais uma vez. Despeço-me agora. Quero aproveitar esses últimos momentos, amando-o com todo o meu ser.

Eu te amo, meu querido Pietro.”

 

Esse papel… Essa caligrafia… Esse cheiro…

 

Enxugo minhas lágrimas. Tenha foco, Pietro! Guardo meus tesouros, contemplo a beleza da minha musa mais uma vez e mergulho com tudo na pesquisa.

 

Não se preocupe, doce Adeline, irei salvá-la!

About the author

Nerd Esotérico

Sou minha essência, não sou o que digo que sou ou o que você diz que sou. Em minha mente egocêntrica, amo escrever, jogar videogame, ler, degustar filmes e boas comidas. Nada mais. Nada menos.

  • Que história linda e marcante Nerd Esotérico! Eu curto demais esse lance sci fi e te digo que esse conto me lembrou o filme de sucesso Interstellar.
    Pelo que percebi, a Terra se extinguiu, a humanidade (ou o que restou dela…) tentou viver num novo planeta chamado Gaia, mas essa nova vida trouxe diversas consequencias negativas né… Meu voto é em mais contos assim!