Festival das Sete Estrelas

A praça. Era redonda, como um anel. E brilhante, como um diamante. Haviam quatro entradas, mostrando o caminho para o centro. Norte, sul, oeste e leste, como os pontos cardeais. E a característica mais marcante do lugar: os canteiros de tulipas. Criando um verdadeiro arco-íris, preenchendo todo o espaço restante. No meio de tudo, um palco que ficava o ano inteiro sem uso, exceto por um dia muito especial para a vila. Normalmente, o local estava sempre cheio, com pessoas caminhando, despreocupadas, focadas em suas tarefas diárias. Porém, naquele dia, talvez com exceção do sol e do vento, o lugar estava deserto. Era uma tradição, parte de um ritual inquebrável. E a praça ficou assim o dia inteiro, solitária.

 

A lua foi a primeira a aparecer. Sorridente e desinibida, mostrando-se para o mundo. Ainda estava claro. Bem devagar, enquanto escurecia, sete grandes estrelas enfeitaram o céu. Era o maior sinal que estava na hora do festival começar. As pessoas começaram a chegar, aos poucos. Primeiro, os velhos, que se sentaram nos bancos de carvalho. Segundo, os andarilhos com suas barracas, prontos para fazer negócio. Terceiro, os adultos, que prepararam o ambiente para o festival. Quando a lua chegou no topo do céu, os jovens começaram a chegar. Os meninos, de terno. As meninas, de vestido. Entre eles, um único rapaz se destacava de todos, pelo fato de vestir roupas de frio e carregar uma mochila. Mairon. Ele caminhava, sem rumo, por entre as pessoas. Um pouco trêmulo, com o rosto úmido.

 

— A noite está linda!

— Sim, uma benção do Eterno.

— É um sinal, devemos continuar sem medo.

 

As pessoas falavam, mais para si do que para as outras. O silêncio de antes se transformou no barulho desenfreado de agora. O clima era de alegria. E da mais pura possível. Todos estavam ansiosos.

 

— Olhe, irá começar.

— Quem serão os felizardos deste ano?

— Não sei, mas espero estar entre eles!

 

Alguns adultos, com instrumentos musicais em mãos, juntaram-se e começaram a tocar. Música alegre. Os jovens, todos, exceto Mairon, que permaneceu perto das barracas, rodearam o palco. Dançavam loucamente. Aqueles que já se amavam estavam grudados. Os perdidos, desamparados, pulavam e corriam, atrás de amor. Devagar, o tom da música foi mudando. Romantismo. Os adultos suspiravam, revivendo o passado através de lembranças. Mairon também suspirava, mas com pesar, também por causa de suas memórias. Quase conseguia ver, por entre os jovens, um reflexo do que já passou. Duas silhuetas coladas, amando-se com os olhos. Entretanto, fechou-se dentro de si, principalmente quando a música parou e os amantes foram para a parte escura da praça. Os rejeitados, infelizes, foram procurar consolo com os adultos.

 

— Acalme-se, meu filho, sua alma gêmea ainda não te reconheceu.

— Mas, pai, eu me sinto tão só…

— Não se preocupe. Acontecerá, eventualmente, e quando o destino decidir que deve acontecer.

— Sim…

 

A música recomeçou. Calma, milenar. Os adultos se juntaram e homenagearam o grande amor. Olhando-se, como sempre se olham, todo ano. Juntos, agarrados, como sempre se agarram, todo ano. Sorrindo, como sempre sorriem, todo ano. Demonstraram o amor que o Eterno trás. O amor que nunca morre. Os rejeitados, mais calmos, observaram. E entenderam, mais uma vez, que vale a pena esperar. Amar aquele que não te ama representa pureza. Mas de que adianta ser puro e estar sozinho? O importante é amar e ser amado.

 

Muito devagar, a melodia começou a morrer. E o silêncio voltou a reinar. Os adultos retornaram para perto das barracas. Sorriam, abobados, cada um com sua alma gêmea. Então, os velhos se levantaram, finalmente. Não havia nenhum casal, era como se estivessem sozinhos no mundo. Com passos vagarosos, eles entraram nos canteiros de tulipas. Olhavam para as flores, procurando. E pegavam, por fim, uma tulipa. Com cuidado, como se fosse um recém-nascido. Começaram a se reagrupar na frente do palco, cada homem e mulher com uma flor nas mãos. Entoaram, então, um canto. Simbólico. Aos poucos, um a um ia depositar sua tulipa na frente do palanque de madeira. Era um presente, um último mimo para aqueles que estavam ao lado do Eterno.

 

Mairon observava o ritual. Já o vivenciara. Já fizera parte daquilo. Antes, conseguia ver a beleza daquele ritual. Uma prece para que o amor recaia sobre todos. Agora, entendia a crueldade embutida no festival. Um tolo. É isso que ele era.

 

— Vai começar…

— Sim, finalmente.

— O Eterno irá abençoar os jovens!

 

O badalar. O som do sino ressoou pela praça. Os adultos, os velhos e os rejeitados se alinharam diante o palco. Os jovens amantes se abraçaram, ainda na escuridão. E Mairon deixou escapar um suspiro.

 

— Por quê…? — sussurrou para si mesmo.

 

Na entrada norte, bem atrás do palco, duas figuras apareceram. Ambos brilhavam, enfeitados com pó lunar. Caminharam até o palanque, sem pressa. Naquele momento, que durou poucos minutos, mas que pareceram anos, o vento começou a acariciar as tulipas. E elas, em resposta, sussurraram o segredo do amor. Porém, assim que as duas pessoas pisaram na velha madeira do palco, tudo parou. Inclusive o tempo.

 

Ele, autoritário, poderoso, sábio. Com postura ereta e olhar rigoroso, o ancião da vila segurava um bastão na mão esquerda e uma taça de vinho na mão direita. Ela, delicada, bela, determinada. Tentava evitar, mas não conseguia. E olhava, de forma rápida e constante, para Mairon. Havia tristeza no olhar, porém, também tinha felicidade. O rapaz, por sua vez, mantinha o olhar fixo, o tempo inteiro, nela.

 

— Irmãos — começou o ancião —, queridos irmãos! Vamos rezar, para que a alma dela alcance o Eterno!

 

O canto começou a ser entoado. O último de todos. Mairon, nesse momento, começou a fraquejar. Voltou a tremer. Filetes de lágrimas começaram a contornar seu rosto contorcido pela dor. Deixou seu corpo cair no chão. No entanto, continuou olhando para ela. A canção durava apenas cinco minutos. E Mairon não podia perder um segundo sequer. Não havia sofrimento no rosto dela. Ele quase conseguia compreender o porquê disso. Nos últimos segundos, quase no final, ela o encarou. Sussurrou três palavras. Sorriu. Mairon prendeu a respiração.

 

O ancião se aproximou dela. Deu-lhe, na boca, o vinho. Bateu seu bastão três vezes no chão e conjurou o fogo milenar. Num segundo, estava inteira, linda, exuberante e com um doce sorriso no rosto. Noutro, estava em chamas, berrando, abraçando seu destino. Todos gritavam, em êxtase, chamando pelo Eterno e pedindo o amor infinito. Mairon não chorava mais. Levantou-se, ajeitando suas roupas e mochila, e encarou sua amada, pela última vez.

 

— Eu te amo. Sempre te amarei. Mas não te perdoo por me abandonar.

 

Foi embora. Ignorou os gritos excitados e alegres dos adultos, velhos e rejeitados. Desprezou os beijos dos jovens amantes, alguns deles futuras vítimas daquele sacrifício. E saiu da praça, escutando o sussurro das tulipas, que choravam por ele. Entrou numa rua escura, que logo foi iluminada pelo fogos de artifício que indicavam o começo da verdadeira festa. Andando pela estrada azul, que indicava a saída da vila, Mairon se fechava cada vez mais dentro de si. Aquele mundo era cruel. Tirar o amor de duas pessoas para manter o amor de todos. Isso era justo? O ser humano era realmente incapaz de amar sem a ajuda do Eterno? Algo crescia dentro dele. A indiferença, talvez. O sofrimento, talvez. A solidão, talvez. Era um sentimento inexplicável. Quando alcançou os limites do vilarejo, olhou uma última vez para trás. Entretanto, não experimentou o que esperava, pois já não sentia mais nada. E entrou na escuridão, sem hesitar, mergulhando naquele mundo de loucos.

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Nerd Esotérico

Sou minha essência, não sou o que digo que sou ou o que você diz que sou. Em minha mente egocêntrica, amo escrever, jogar videogame, ler, degustar filmes e boas comidas. Nada mais. Nada menos.

  • Rapaz esse conto é pesado hem! Como o povo iludido pelos seus líderes são capazes de fazer algo tão grotesco desse! E coitado do pobre Mairon…talvez ele seja o libertador que o povo precisa!

    Interessante o como isso se assimila em vários fatos do nosso cotidiano, o como as pessoas são enganadas pelos seus líderes sejam religiosos ou políticos. Claro que há pequenas exceções, mesmo que mínimas mas tem, mas no geral é o “pão e circo” que induz e conduz a população.