No Fundo do Oceano

Elas estavam perto, muito perto, Teron podia senti-las. Continuou a nadar, sem parar, desesperadamente, até encontrar uma grande floresta de algas.

 

“Isso! Que sorte!”, pensou ele.

 

Misturou-se ao ambiente. E ficou imóvel. Aos poucos, suas escamas começaram a mudar de cor. Verde, como as algas.

 

Esperou. Esperou. E esperou.

 

Sentia cada movimento da água. Era especialista nisso. Sentiu quando elas se aproximaram. Sentiu quando elas entraram na floresta de algas. Sentiu quando elas passaram por ele. Sentiu quando elas desistiram e seguiram mar adentro.

 

Podia respirar tranquilo, por agora. As filhas de Poseidon eram, de fato, perigosíssimas. Adoravam sua carne. Ah, que maldição ter nascido um duende-do-mar. Mas assim era a vida.

 

Bela e feia vida.

 

 

Teron nasceu de um ovo, numa floresta de algas, sozinho no mundo — assim como todos os duendes-do-mar. Viu o mar pela primeira vez num verão aquático estranhamente frio. Apaixonou-se por aquele mundo, tão grande, tão bonito…

 

Era minúsculo. Precisava de duas folhas de alga por dia para sobreviver. E um pouco de liberdade! Só isso. Gostava de nadar por horas, deslizar pelas pedras, observar os peixes coloridos que viviam nos recifes de corais, brincar com eles.

 

Amava a vida.

 

 

Anoiteceu.

 

O mar foi consumido pela escuridão. Estava seguro, enfim, então Teron continuou sua jornada. Nadou por horas, incansável, atento aos perigos noturnos e, claro, aproveitando todos os momentos. Costumava abrir os braços enquanto nadava e sentir a água passar por seus delicados dedos.

 

Eram esses momentos que faziam a vida valer a pena. Esses momentos e aqueles que teve com ela. Ah, aquela linda filha de Poseidon, com olhar doce, tão diferente das demais, tão bela!

 

Suspirou. E acelerou. A hora estava chegando, podia sentir claramente.

 

 

A vida era boa.

 

Claro, ele tinha alguns problemas, como todo ser vivo, mas sua vida era boa. Às vezes, precisava fugir das sereias — os tritões nunca foram um problema, pois, por algum motivo, eles tinham um paladar diferente. Porém, assim como todos os duendes-do-mar, Teron era mestre da fuga.

 

Em contrapartida, Teron fazia amizade fácil com peixes pequenos. Eles se agrupavam ao seu redor. Beijavam-no sem parar. Era uma festa incrível! Mas logo iam embora. Eles tinham suas famílias, suas missões, suas vidas.

 

Era da sua natureza ter uma existência solitária. Ele sabia disso desde sua nascença naquele verão aquático estranhamente frio. Mas, às vezes, desejava, silenciosamente, encontrar alguém próximo, alguém que pudesse confiar e, quem sabe, amar. Era triste e feliz, ao mesmo tempo.

 

Vivia sozinho… Até conhecer ela.

 

 

O lugar era perigoso. Teron acompanhou o nascer do dia, observando os raios do astro-rei penetrarem o fundo do oceano, vislumbrando aquela grande fortaleza. Um dos lares das filhas e filhos de Poseidon. Estavam em guerra, como sempre estavam. Podia ver as armas — que ficavam maiores a cada ano — e fileiras de guerreiros se preparando para a terrível marcha da morte.

 

Qual foi o destino dela? Ele se perguntava todos os dias, mas preferia não definir uma resposta. Às vezes, o mistério pode ser muito confortante. Não saber de certas coisas era bom.

 

Balançou a cabeça, guardou as lembranças no baú das memórias com um sorriso no rosto e aprofundou-se no mar, assim como o astro-rei. Estava perto do seu destino.

 

 

Um dia, depois de fugir de algumas sereias bem chatas, Teron se refugiou nas ruínas de uma grande casa. Aquilo era algo inédito para ele. Estava acostumado a ver fortalezas das filhas e filhos de Poseidon espalhadas pelo oceano. Como não vê-las? Mas uma casa, solitária, destruída, ah, não, nunca havia visto.

 

Ficou nadando pelas redondezas, curioso, olhando tudo, das paredes até pequenos objetos cobertos por musgos. Estava analisando o que parecia ser uma moeda de prata quando percebeu a presença de alguém. Escondeu-se atrás de uma pedra. Fechou os olhos. Se tivesse sido visto, bem, seria seu fim.

 

—Ei, não tenha medo…

 

Continuou imóvel.

 

— Eu te vi, seu bobo. Está atrás dessa rocha.

 

Ela se aproximava. Prendeu a respiração.

 

— Não vou te fazer mal.

 

E, quando olhou para cima, viu uma grande sereia se debruçando na pedra. Congelou. Era seu fim.

 

— Então, você é um duende-do-mar. Nunca vi um… Não assim, vivo… — falou ela, mais para si do que para Teron.

 

Então ele esperou pelo golpe de misericórdia. Fechou os olhos. Abriu os braços. E se despediu do mundo, tão belo, tão feio. Mas, para sua surpresa, o que ele recebeu estava longe de ser uma estocada no peito, ou um corte na cabeça; e sim um grande e apertado abraço.

 

Bem, quase morreu, de qualquer forma, de tão forte que aquela sereia o abraçou.

 

Livre dos braços dela, Teron conseguiu vê-la melhor. Era bela. Era boa. Era diferente. Apaixonou-se na hora.

 

 

E lá estava ele, mais uma vez, sentado naquela rocha, naquela mesma rocha que sentava para esperar ela todos os dias; olhando paras as ruínas, aquelas mesmas ruínas que ele brincava com ela todos os dias.

 

Suspirou.

 

Já faziam anos. Muitos e muitos anos. Olhou uma última vez para aquele lugar. Nadou até uma pequena floresta de algas que crescia nas redondezas. Colocou um ovo. Acariciou-o. Sua linhagem iria continuar.

 

“Que bom…”, pensou ele. “Espero que encontre alguém como ela.”

 

Voltou para as ruínas, tentou chegar até a pedra, mas estava muito fraco. Caiu na areia fofa. E morreu olhando para aquelas paredes que lhe eram tão especiais.

 

 

O dia começava e Teron nadava para quelas ruínas. Sentava-se na rocha que usou como esconderijo no dia que conheceu ela. Observava os peixes pequenos acordarem e começarem suas rotinas.

 

Esperava. Esperava. E esperava.

 

Ela, então, aparecia com seu belo sorriso. Passavam a manhã juntos, pois a sereia tinha grandes compromissos de tarde naquela grande fortaleza. Fartavam-se de brincar. Nadavam muito. Conversavam muito. Teron nunca contou seu nome para ela. E nunca soube seu nome, também. Não fazia diferença. Eram amigos.

 

Ah, como aqueles dias foram felizes…

 

Foi numa primavera quente. A sereia parou de aparecer. Houve uma grande batalha nas redondezas, entre o Povo de Poseidon e o Povo dos Abismos. Teron temeu pelo pior, mas preferiu acreditar que ela estava bem.

 

Mas ele continuou a se sentar naquela pedra, todos os dias, esperando pela sua amiga. Meses se passaram. E ele, por fim, desistiu. Nadou para longe. Para lugares mais seguros. Continuou a viver. Pois essa era a lei natural da vida.

 

 

Era um ovo. Pequeno e branco, com listras amarelas, frágil. Estava numa floresta de algas. Começou a rachar, devagar, devagar. E uma criatura surgiu do seu interior. Parecia um humano, mas era pequeno e tinha escamas. Não tinha cabelo. Não tinha boca — era um bico no seu lugar. Seus olhos eram grandes e curiosos.

 

Levantou-se, tentando nadar, mas ainda estava fraquinho. Começou a caminhar pela areia fofa. Saiu da floresta e viu a imensidão do oceano pela primeira vez. Apaixonou-se. Andou até as ruínas de uma construção antiga. Ficou encantado com aquilo tudo. Parecia que conhecia aquele lugar. Era estranho…

 

Tentou nadar novamente. Conseguiu dessa vez. Olhou uma última vez para aquilo tudo, sentiu um aperto no coração, e foi embora. Chamava-se Teron. E sua vida estava começando naquele momento.

About the author

Nerd Esotérico

Sou minha essência, não sou o que digo que sou ou o que você diz que sou. Em minha mente egocêntrica, amo escrever, jogar videogame, ler, degustar filmes e boas comidas. Nada mais. Nada menos.
  • Meu Deus que história! Estou encantada! Eu fiquei triste e feliz ao mesmo tempo. Feliz por poder ler essa história tão bem escrita. Sério, vc precisa escrever mais, Victor! E fiquei triste porque Teron permaneceu sozinho até o fim 🙁 Aaaah mesmo assim eu amei, mesmo! <3
    Parabéns!
    Aproveito para te informar que o seu blog foi indicado ao prêmio The Mystery Blogger Award, confira neste link:
    http://www.tamaravilhosamente.com/2017/12/the-mistery-blogger-award.html
    Abraços e bom fim de ano!
    Tamara

    • Oi Tamara!
      É uma honra ter mais uma vez sua visita aqui na nossa aconchegante casa e fico mais honrado ainda em descobrir que estou concorrendo a um prêmio! Que isso gentee?! Rs Sério, só de participar já fico feliz demais!
      Fico triste também, pelo fato de não ter conseguindo participar do ultimo evento em seu blog, mas pode ter certeza que nos próximos já marco presença.

      Quanto ao texto, então o autor na verdade não sou eu rs, o autor é o Fábio, o Nerd Esotérico (eu sou o Profeta rsrs!), e ele sim é um grande escritor também! Ele está sempre nos prestigiando com ótimas histórias e contos aqui!

      Ótimo natal e fim de ano para você também!

  • Que bela história! Triste que ele não ficou com sua amada! Mas, pelo menos para mim, o verdadeiro amor de Teron era a liberdade da vida que ele tinha.