O Vazio (1/13)

“A vida pode ser bela, muito bela, mas, às vezes, para enxergar essa beleza, precisamos da ajuda de algo…”

Roman Kazinscky

Capítulo 1

Decrescente

 

Sob o olhar de duas prostitutas, Roman caminhava lentamente, aprofundando-se naquele beco escuro e imundo.

 

Cheiro de urina e fezes. Forte, tão forte, fortíssimo; envolvendo suas narinas, penetrando fundo n’alma.

 

Ignorou as provocações das mulheres, ávidas por dinheiro, e continuou andando. Parou diante uma grande porta de aço, bateu três vezes e esperou.

 

Tentava ignorar as lamúrias da cidade. Os sons se fundiam e surgia um turbilhão de desespero, ansioso para capturá-lo.

 

O portão abriu com um forte rangido metálico. Um homem alto e magro o olhou da cabeça aos pés.

 

— O que você quer?

 

Roman vacilou um pouco.

 

— Juan me enviou. Quero um pouco daquilo…

— Entendi — disse o homem, abrindo um largo sorriso.

 

Malícia!

 

— Espere aqui.

 

Por breves momentos, sentiu-se em paz. Iria conseguir fugir daquilo tudo, mais uma vez. Acariciou o maço de notas que carregava consigo. Sorriu levemente. Mas o belo sentimento fugiu, escondendo-se no âmago de seu ser, quando viu o homem retornar com uma pequena sacola na mão.

 

Apreensão incentivada por aquela diminuta chama interior que sabe tudo.

 

— Aqui — falou ele, entregando a sacola. — Use com cuidado. Uma gota em cada olho a cada vinte minutos e você ficará no paraíso por muito tempo,yehe, confie em mim.

 

Entregou o dinheiro e foi embora. Não olhou para trás. Não falou nada. Algo diferente nascia dentro dele. Com passos rápidos e sentidos alarmados, o rapaz penetrou a viela até seu canto mais escuro. Sentou-se no chão, retirou um frasco de vidro da sacola e encarou-o.

 

Corpo trêmulo e respiração ofegante, pois sabia o que o esperava. O verdadeiro paraíso no inferno.

 

Desatarraxou, pegou o conta-gotas e capturou um pouco do líquido do frasco. Prendeu a respiração e inclinou a cabeça para trás.

 

— Um, dois, três… — sussurrou ele.

 

Olhando para aquela gota que se formava, devagar, singela; ele percebeu, em nível subconsciente, o sentido da vida…

 

Assustou-se com o impacto da primeira gota, mas a segunda serviu apenas para aumentar sua ansiedade.

 

… Mas logo se esqueceu e mergulhou, novamente, na ignorância.

 

Esperou. Esperou mais. Esperou ainda mais. E o mundo se transformou diante seus olhos.

 

As cores se intensificaram, surgindo vida onde existia apenas a morte. Roman podia sentir tudo ao seu redor, desde o vento até a vibração causada por uma risada ao longe. Sentia a si mesmo. Sentia Deus.

 

A euforia é sua mãe, envolvendo-o em seus ternos braços, amando-o.

 

Levantou-se e, sem pensar duas vezes, correu para as ruas do centro. Era uma nova pessoa? Errado! Na realidade, Roman voltou a ser quem realmente era. Um ser humano capaz de sorrir!

 

Mergulhou fundo nas festas da noite, sem se preocupar com o futuro.

 

Queria amar!

About the author

Nerd Esotérico

Sou minha essência, não sou o que digo que sou ou o que você diz que sou. Em minha mente egocêntrica, amo escrever, jogar videogame, ler, degustar filmes e boas comidas. Nada mais. Nada menos.