Ordinário / Extraordinário

Ordinário

 

Ele sonhava com coisas grandes. Grandíssimas, para ser exato.

 

“Com certeza, antes mesmo de me formar, irei encontrar um bom emprego. E assim que tiver me firmado na empresa, terei condições de comprar uma boa casa. Depois, um bom carro. E, bem mais na frente — pois tenho que aproveitar a vida —, arranjar uma boa mulher para casar! Irei viajar pelo mundo. Não nasci para coisas pequenas. Nasci para ser grande!”, costumava declarar na mesa de bar, depois de algumas cervejas.

 

Pensou que iria realizá-los. Pensou, apenas pensou; pois nunca foi capaz de prever o futuro, ou entender que a segurança é uma ilusão, ou enxergar que não é melhor do que ninguém.

 

Naquele dia, em especial, ele se levantou mais cedo do que o normal. Sentiu algo estranho. Muito estranho. Era um sentimento, mas também não era.

 

“Enfim…”, pensou ele, depois de ficar alguns minutos refletindo sobre isso enquanto encarava uma teia de aranha no canto da parede.

 

Fez a mesma coisa de sempre: levantou-se e ligou seu computador. Sentou-se. E se distraiu. O alarme finalmente tocou. Hora de ir para a faculdade. No ônibus, com o rosto colado no vidro, imaginou como a vida seria bem mais fácil quando conseguisse comprar um bom carro.

 

“Isso, um bom carro, é tudo o que preciso. Ah, e uma boa casa, claro, isso não pode faltar!”

 

Acreditava que era popular na faculdade, mas era só ilusão. Acreditava que todas as meninas queriam sair com ele, mas era só ilusão. Acreditava que era o melhor aluno da turma, mas era só ilusão. Ele realmente acreditava naquilo tudo! E como era persuasivo, conseguia fazer os outros acreditarem também. Mas bastava um pouco mais de atenção, de observação, para perceber que era tudo mentira. Não era chamado para as festas. Não saia com uma garota há mais de um ano. Não tirava mais do que oito nas provas.

 

Ele é um fanfarrão!”, riam as pessoas.

 

Quando a faculdade acabou, chamou alguns colegas para sair, beber uma cerveja, talvez. Todos tinham compromissos já firmados — que não incluíam ele —, então decidiu voltar para casa e jogar um pouco no computador. Como sempre. Dormiu um pouco no final da tarde. E quando anoiteceu, sua mãe o chamou.

 

“Filho, vai lá comprar pão pro café!”, exclamou ela, da cozinha.

“Posso ficar com o troco?”, perguntou ele, um pouco antes de sair.

“Não.”

 

Caminhando na rua, ele se perguntou quando chegaria sua hora de brilhar. Estava demorando! Ele precisava brilhar. E rápido! Havia nascido para aquilo. Entrou numa rua escura e deserta. Era um atalho para a padaria. Não percebeu que um rapaz o seguia. Não percebeu quando ele tirou a faca da calça. Não sentiu direito a primeira facada. A segunda, a terceira e a quarta facada. Todas nas costas. Caiu de lado, soltando um grito agoniado. Agora sentia dor, muita dor. Não viu o homem direito, apenas soube que era um homem. Levou mais três facadas: duas no peito e uma no pescoço. Seus bolsos foram revirados. Implorou por ajuda, baixinho.

 

“Cinco reais, caralho?”, ouviu o ladrão gritar, revoltado.

 

Levou mais uma facada. Mas não fazia mais diferença. Não sentia mais nada. Com o olhar perdido, ele agonizou sozinho por mais de um minuto. Assim acabaram-se seus sonhos. Assim acabou-se sua vida.

 

E essa é a história do homem ordinário.

 

Extraordinário

 

Ele sonhava com coisas pequenas. Simples, mas boas. Não tinha certeza se iria realizá-los, mas iria tentar.

 

“O que eu quero? Ah, quero viver em paz. Um amor? Hum… Sim, sim, claro que quero encontrar, mas somente se for verdadeiro, né. Há tanta falsidade hoje em dia. Ah, não tenho preferências, quero viver num lugar que faça parte de mim, apenas isso. E você?”, ele respondia sempre que questionado, pois nunca falava de si por iniciativa própŕia.

 

Queria realizar seus sonhos, queria mesmo, mas sabia que, às vezes, a vida não era justa. Ela toma e não dá, como costumava falar para seus amigos. Aceite, era seu melhor conselho.

 

“Oras, por que se preocupa tanto com isso? Aconteceu, não dá pra voltar no tempo, siga adiante!”, disse certa vez para um bom rapaz.

 

Naquela manhã, quando acordou, sentiu-se triste. Mas não era bem tristeza o que sentia. Era estranho. Algo único. Ficou alguns minutos degustando aquele sentimento novo, com os olhos fechados, até decidir se levantar. Saiu para caminhar, como sempre.

 

O dia estava lindo. Algumas flores desabrochando, algumas pessoas sorrindo, alguns amores se encontrando, algumas vidas se findando. Com as mãos no bolso, ele andou e andou, sem parar, pela orla da praia.

 

O mar era uma das muitas coisas que provocavam lágrimas nele. Quando decidiu parar para olhá-lo, não resistiu e, mais uma vez, chorou.

 

“Que estranho”, costumavam lhe falar. “Um homem tão sensível assim…”

 

Sua resposta era sempre um sorriso. Doce e compreensível. Não entendiam. O homem comum enxerga apenas o mundo que está na sua frente e não consegue, infelizmente, entrar no mundo de outra pessoa. Era um mal? Talvez, mas não adiantava pensar nisso, ou procurar soluções, ou tentar reparar por contra própria. As pessoas precisam ver a realidade com os próprios olhos para entendê-la.

 

Enxugou as lágrimas e continuou seu caminho. Tinha um longo dia pela frente, cansativo, mas recompensador.

 

“Você realmente gosta de trabalhar?”, perguntavam com frequência.

“Sim, adoro trabalhar.”

 

Estava voltando para casa. Olhava para o céu, para as nuvens, para o universo; quando percebeu que um cachorro atravessava a rua despreocupado enquanto um carro vinha em sua direção. O motorista não viu, ou fingiu não ver, e não desacelerou. Era um vira-lata, não faria falta ao mundo, ele pode ter pensado, talvez, não se sabe.

 

Ele reagiu instintivamente. Não gostava de sofrimento. Não queria isso para os outros. Correu, agarrou o cão e jogou-o para a calçada. O carro atingiu suas pernas. Ele bateu a cabeça no capô, as costas no para-brisa — rachando-o — e voou para o alto. Caiu no chão com tudo. E, antes de desmaiar, viu o motorista sair do carro, xingá-lo e fugir.

 

Quando acordou, não sentia mais nada da cintura para baixo.

 

“Você nunca mais vai andar”, contou o médico.

 

Ele chorou um pouco, chorou tudo o que tinha que chorar; era humano, tinha desejos, sonhos. Mais tarde, vivendo uma nova vida, com novos desejos, com novos sonhos, perguntaram-lhe: valeu a pena?

 

“É claro que sim! Ainda estou vivo, não estou?”

“Mas…”

“A vida é assim mesmo. Um mar de flores. E um mar de dores.”

 

Assim ele viveu, diferente de todos, sorrindo mesmo numa cadeira de rodas. Encontrou amor. Encontrou paz. Encontrou-se.

 

E essa é a história do homem extraordinário.

About the author

Nerd Esotérico

Sou minha essência, não sou o que digo que sou ou o que você diz que sou. Em minha mente egocêntrica, amo escrever, jogar videogame, ler, degustar filmes e boas comidas. Nada mais. Nada menos.

  • Sem palavras aqui… Resumidamente é as duas faces que temos dentro de nós: ou olhar sempre o pior ângulo e o lado negativo de tudo na vida ou olhar sempre o melhor ângulo e o lado positivo das coisas na vida…é uma escolha que pode durar a vida toda..