Singularidade

“Tudo, aliás, é a ponta de um mistério, inclusive os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo.”

Guimarães Rosa

 

Ato I

Final (Ou Seria Início?)

 

Eu sei quando o mundo acabou.

 

Foi em março, numa tarde quente de outono, no final do mês. Qual era mesmo o ano? 2007? Não, não foi. Eu amava naquela época. É, eu amava… 2010. Isso! Tudo acabou. Ou foi quando começou? Não sei, realmente não sei.

 

Não importa.

 

Estava sentado no sofá, distraído com distrações e preocupado com preocupações. Inspirava. E expirava. O coração palpitava. As falas vazias e falsas que saiam da televisão. O tique-taque do relógio. A melodia irritante da vida urbana. Tudo isso me envolvia. No entanto, num piscar de olhos, tudo mudou, tudo parou.

 

Não sentia mais nada. Não ouvia mais nada. Não sabia mais nada. E, estranhamente, sentia, ouvia e sabia tudo. Acredito que foi naquele momento que morri. Ou foi quando nasci?

 

Realmente, nada disso importa.

 

Ato II

Amor (Ou Seria Paixão?)

 

Doce, doce como um torrão de açúcar.

Lindo, lindo como a alvorada da vida.

Excitante, excitante como o primeiro beijo.

Saudoso, saudoso como aquele sorriso.

 

“O que é isso, Carol?”, perguntei.

“Um poema para ti, meu amor!”, ela respondeu com sua usual alegria.

“Muito bonito.”, disse de forma sonhadora.

“Assim como você!”, exclamou ela, abraçando-me. Não senti nada.

 

Não me lembro quando conheci ela. Talvez sempre a conheci. Carol era uma doce mulher e costumávamos nos encontrar periodicamente. Ficávamos no mesmo banco de madeira, na mesma praça movimentada e, por mais incrível que pareça, no mesmo dia ameno de outono. As pessoas iam e vinham. Não ventava, mas as árvores dançavam mesmo assim. O silêncio era soberano; mas, no fundo, bem no fundo, o barulho também governava.

 

Era esquisito.

 

“Você vai voltar amanhã?”, perguntou Carol, olhando nos meus olhos com intensidade.

“Talvez…”, respondi com certa frieza.

“Volte, por favor, volte!”, suplicou ela, rindo com sedução.

“Vou pensar. Você sabe que gosto e valorizo muito a minha liberdade. Sabe, não é?”, discursei como sempre discursava.

“Sei, sei, hihihi. E isso te faz mais lindo ainda!”, respondeu me surpreendendo.

 

E juro que escutei “também sou livre”, mas não tenho certeza de tudo que escuto hoje em dia.

 

Grande é o meu amor por ti… Tanto quanto o Colisor dos Universos! Ou o olhar de dois apaixonados sob o luar. E forte é nossa interação, tão forte, que parecemos dois Hádrons!”, recitou Carol, antes de ir embora.

 

Ato III

Rotina (Ou Seria Aventura?)

 

Minha vida não mudou muito, se é que tinha alguma. Continuei fazendo o mesmo de sempre, o mesmo que muitos fazem, ou seja, praticamente nada.

 

Acordava sem me lembrar de ter dormido. Comia sem me lembrar de ter mastigado. Olhava sem me lembrar de ter piscado. Importava-me com coisas sem importância. E não me importava com coisas importantes. Não pensava muito. Apenas agia.

 

Às vezes, no meio dessa rotina, via-me em outros lugares. Numa praça movimentada com uma doce mulher. Sentado numa praia sem areia e olhando as pessoas nadarem num mar sem ondas. Beijando sem boca. Amando sem amor. Um turbilhão de sentimentos me envolvia nesses momentos inusitados, que quebravam a rotina, e me sentia mais vivo.

 

Muito mais vivo.

 

Mas nada disso durava muito. Logo estava novamente em casa, sentando no sofá, vendo coisas que não precisavam ser vistas, fazendo coisas que não precisavam ser feitas.

 

E assim o meu dia recomeçava.

 

Acordava sem me lembrar de ter dormido.

 

Ato IV

Ilusão (Ou Seria Realidade?)

 

Todo ser humano já sentiu, em algum ponto da sua vida, que estava vivendo um momento único. Algo incomparável, que não iria se repetir. Nunca mais.

 

Senti isso uma vez, apesar de saber, no âmago do meu ser, que isso é mentira.

 

“O que você está olhando?”, perguntou um rapaz que se deitou ao meu lado naquela grama fofa.

“Não sei bem…”, respondi, apontando para cima.

 

Ele seguiu minha indicação. E viu o que eu via. As estrelas dançavam no céu. A maioria queria seguir alguma dança existente, pré-estabelecida. Tango, bolero, charme, samba. Assim é mais fácil, não é? Mas existiam aqueles que não seguiam rótulos, que dançavam suas próprias danças, suas próprias músicas.

 

“Existe coisa mais bonita do que a singularidade?”, perguntou ele.

“Não, não existe…”, falei com os olhos perdidos naquele show de luzes.

“O congelamento desse momento em nossa memória o tornará eterno.”, disse o rapaz.

“Às vezes, não sei bem o porquê disso, acho que estou preso na minha mente. Ou que não existo mais. Não como antes, pelo menos. Você sente o mesmo?”, refleti.

 

Porém, quando virei o rosto, vi-me sozinho naquelas planícies. E quando olhei para cima, encontrei apenas o teto do meu quarto.

 

Ato V

Tudo  (Ou Seria Nada?)

 

Estava sentado num banco de madeira, numa praça movimentada, num dia ameno de outono, ouvindo o silêncio da cidade e a dança obscura das árvores. Nunca estive lá antes. Ou estive?

 

De vez em quando, olhava para cima, e via uma grande bola negra. Nada escapava dela. Tudo pertencia a ela. Não conseguia encará-la por muito tempo. Tinha medo. Um medo que inspirava respeito. E tinha a nítida impressão que ela era minha mãe, meu pai, meu irmão e, inclusive, eu mesmo.

 

Sentia falta de algo. De alguém. Mas não sabia bem o que era. Tateava o lado direito do banco, como se procurasse por algo. Uma mão, talvez.

 

Não sei.

 

Posso estar errado, mas acho que até no fim as coisas tem um final.

About the author

Nerd Esotérico

Sou minha essência, não sou o que digo que sou ou o que você diz que sou. Em minha mente egocêntrica, amo escrever, jogar videogame, ler, degustar filmes e boas comidas. Nada mais. Nada menos.