Um Pouco de Piedade, Por Favor

Saiu de casa, ignorando os gritos de sua mulher, e seguiu pela rua movimentada da favela.

 

“Foda-se, foda-se tudo e todos!”, pensou Otaviano. Ele era livre, complemente livre. Até para machucar as pessoas que amava.

 

Ele tentava, em vão, seguir em linha reta. Mas cambaleava para lá e para cá, num ritmo quase sincronizado, arrancando a risada de alguns e o desprezo de outros. Não se importava, realmente não se importava. Eles não o entendiam. Não mesmo.

 

Entrou numa ruela que ficava entre duas casas mal acabadas. Era um atalho para o Botequim do Paraíba. Otaviano sabia que aquele caminho não era muito seguro, mas ele precisava de outra dose, precisa de verdade, e rápido. Adentrou aquele beco, adentrou naquela escuridão, e, quando virou a esquina — entrando noutra ruela —, e esbarrou num rapaz alto e forte. Um copo cheio de cerveja voou para o alto e quebrou-se no chão.

 

— Que porra é essa!? — gritou ele.

 

Quase caiu, mas conseguiu se equilibrar. E resmungou alto, mais alto do que deveria. Quando olhou para trás, com um olhar irritado, Otaviano reconheceu o homem, e logo seu olhar mudou. Ficou com medo. Era Silvinho. Engoliu em seco.

 

— Porra, seu bêbado, você derrubou minha cerveja!

 

Otaviano se engasgou. Não tinha um tostão na mão.

 

— Como que vai ser, velho?

— Desculpe…

 

Otaviano percebeu, pelo olhar de Silvinho, que não iria escapar daquilo. Quando estava caído no chão, levando pontapés e cusparadas, mantinha a mão na boca. Tinha que protegê-la. Era essencial.

 

Foi deixado ali, no meio da sujeira, com lágrimas deslizando gentilmente pelo rosto. Levantou-se. E saiu do beco. Gozações, por todo lado. Maldade. Não importava para onde ele ia. Não mesmo. Era sempre a mesma coisa. Risadas e mais risadas. Deboches.

 

Quando chegou ao Botequim do Paraíba, sentou-se no seu lugar de sempre e olhou para o atendente. Houve alguns segundo de silêncio. Pediu com os olhos por piedade. Por favor, teria falado, mas era, estranhamente, orgulhoso.

 

O atendente suspirou, pegou um copo e encheu-o com um pouco de cachaça. Otaviano estava trêmulo. Mas quando sentiu o líquido descendo suavemente pela garganta, sentiu-se forte novamente. O mundo havia ganhado um pouco mais de brilho. E ele sorriu, aquele sorriso sem dentes, mas de alegria.

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Nerd Esotérico

Sou minha essência, não sou o que digo que sou ou o que você diz que sou. Em minha mente egocêntrica, amo escrever, jogar videogame, ler, degustar filmes e boas comidas. Nada mais. Nada menos.